Maria de Melo

Profissão e maternidade



Trabalhar fora, ainda uma culpa?

Maria de Melo

O tempo mais curto que se tem é para estar com os filhos. Eis aí, quem sabe, um dos mais delicados problemas da família hoje. De um lado, a mulher que tem necessidade, desejo e potencialidade para uma vida mais pessoal e, para isso, de uma profissão. E aí não tem pacto. Quem não trabalha, em nossa cultura, é uma pessoa dependente, pendurada na profissão do marido. Uma pessoa sem segurança pessoal, real, objetiva. Mesmo quem não precise trabalhar por necessidade, precisa de uma profissão. Hoje as pessoas são aquilo que elas fazem. E os próprios homens começam agora a querer uma companheira, não apenas a boa esposa e a boa mãe. Para um número cada vez maior de mulheres já não há muita escolha: é dentro dessa realidade que os seus filhos estão nascendo.

Por outro lado, temos duas outras realidades. Uma, social: a sociedade ainda não forneceu nenhuma forma convincente e eficiente de resolver o problema da substituição da mãe. A outra realidade é psicológica, humana e milenar: criança precisa de mãe. Por aí já se vê que essa questão de ter ao mesmo tempo de trabalhar e de cuidar dos filhos não vai ser resolvida sem um certo grau de conflito. Eu acho que, se a mulher está bem amadurecida, se ela se trabalha emocionalmente, pode resolver o problema da culpa. Se ela tem consciência das suas possibilidades, dos seus limites, se ela não carrega dentro de si uma quantidade grande demais de ódios e conflitos inconscientes, ela pode resolver o problema da culpa patológica em relação ao tempo em que está longe do filho. Essa culpa patológica seria decorrente de uma problemática emocional, que, aliás, ela tem de resolver independente do filho. Agora, pelo conflito, todas as mães de hoje certamente vão passar. 

Mas como cada mãe vai resolver seu conflito? Parece que aí há muitos tipos de mãe. Tem a que trabalha, fica o dia inteiro fora e diz que o que vale é a qualidade; mas dizem isto sem querer olhar o problema com profundidade. Pois, afinal, que qualidade pode haver em dez minutos diários com o filho? Outras, para não entrarem em contato com o conflito, ou a culpa, simplesmente não lidam com o problema. E de fato abandonam a criança. Outras a entregam para pessoas, sem olhar com cuidado e coragem se a tal pessoa é ou não adequada para cuidar de crianças. Racionalizam dizendo que está tudo bem, e desligam.

Ora, é sabido que uma relação com uma criança pequena exige muito. Bebê exige mãe 24 horas por dia. Mas aí eu gostaria de explicar o que eu entendo por mãe. Mãe, para mim, é alguém que esteja centrado nas necessidades da criança, que esteja se preocupando, cuidando, responsável: ligada! Quanto menor é a criança, mais precisa desta relação simbiótica. E isso, quando a relação está bem, ocorre naturalmente. A necessidade do bebê é a da mãe de modo natural e espontâneo. O prazer dele é o prazer da mãe. Essa ligação simbiótica entre mãe e filho é tão forte que, aqui em casa, até a Lili, a cachorrinha, percebia e ia me buscar onde eu estivesse, quando meu bebê chorava.

Este conceito de mãe – alguém que está realmente ligado – é muito importante na hora de escolher quem vai ficar com a criança. A pessoa escolhida deve também ter, em boa medida, essa capacidade. Se ela – a babá, a enfermeira, a empregada – está muito centrada em suas próprias necessidades e problemas, acho que não serve. Não tive boas experiências, por exemplo, com enfermeiras. Uma era muito eficiente, mas emocionalmente muito distante do bebê. A outra se grudava demais à criança, e de forma complicada. Ela entrava competindo no papel de mãe e contava, como glória, que quando ela saía das casas, as crianças adoeciam de saudade. Contava, cheia de sí, que, com ela, as mães nem precisavam mais cuidar dos filhos. Então, ela se ligava emocionalmente, mas não era um vínculo saudável. Ela não estava centrada no que a criança precisava, mas na sua própria carência e daí a uma necessidade de que a criança se ligasse nela de forma exagerada. Eu não estava satisfeita, mas, duvidando de mim mesma, insegura, me perguntava: será que eu não estou com ciúme? No fim, confiei em minha intuição e despedi esta enfermeira. Lamentando muito. Porque uma parte minha dizia: está tudo ótimo, ela se dedica ao bebê e assim eu e meu marido ficamos livres para trabalhar. Era o que todo mundo queria! E como é fácil racionalizar em cima do que todos, no fundo, estão querendo...

Bem, como resolvi o problema? Aí entrou um pouco de sorte. Se é que sorte existe, o que, na verdade, não acredito. Mas enfim, acabei encontrando uma pessoa, que por acaso é minha parenta, uma mãe aposentada. Dessas pessoas que já criaram os filhos e estão com dificuldade de retomar a profissão neste tempo de desemprego e altas exigências tecnológicas... Eu ficava com o bebê de manhã, ela ficava de tarde. Ela adorava a criança e eu ficava tranquila, sem um pingo de ciúme. Desde que a relação fosse saudável, quanto mais maternagem meu filho tivesse, melhor. E, neste caso, eu sentia que podia confiar. Então, eu tinha um critério bastante claro com quem e por quanto tempo eu poderia deixar o bebê.


Que parceiros a sociedade nos oferece hoje para educar nossos filhos?

Conto meus próprios erros e acertos para mostrar que sei o quanto não é fácil encontrar pessoas que nos ajudem realmente nesta empreitada se ser uma boa mãe. E, mesmo indo trabalhar, você não pode se dispensar de estar sempre ligada, disponível na medida do possível. Quando tinha um filho pequeno, um bebê, em casa, dizia claramente para os meus pacientes que, de repente, eu poderia ter que cancelar a sessão. Claro que qualquer profissional está sujeito a ter que cancelar o compromisso profissional. Mas uma mãe de criança pequena, fica muito mais vulnerável a esta circunstância, se ela quiser priorizar a maternidade.
E ajudava o paciente a elaborar esta questão, que é delicada. 

Mas como psicóloga clínica, tenho facilidade de flexibilizar meus horários. Outras profissões, como sabemos, apresentam dificuldades muito maiores para a mãe. A amamentação, por exemplo, deveria ir até os 9 meses de idade do bebê, aproximadamente. Como compatibilizar isto com a vida profissional numa sociedade cada vez mais competitiva?

Atualmente já existem creches de melhor qualidade para os pequenos. Mas ainda é preciso pesquisar com muito cuidado. E custam caro. No entanto, se oferecerem um campo amoroso, não acredito que seja aí que se deve economizar! Terapia no futuro para a criança, custará mais caro, financeiramente e psiquicamente!

Penso que ainda hoje nossa cultura não dá o devido valor à educação. E aqui estou chamando de educação o ato de cuidar de uma criança, de dar à ela o campo emocional necessário para que possa amadurecer, crescer como pessoa. Valoriza-se ainda demais a tarefa de adquirir conhecimentos, a inteligência intelectual, em detrimento da chamada inteligência emocional. O resultado é que hoje temos aí tantos adultos analfabetos emocionalmente...

Acho que o papel do professor precisa ser recolocado em nossa cultura. Por todos nós, pais, cidadãos, e pelo próprio professor. A dignidade do ‘mestre’ precisa ser revisitada. Talvez até o quanto a sociedade oferece financeiramente para o trabalho do professor tenha que ser repensado. Eles são nossos parceiros na orientação de nossos filhos, são educadores e não apenas transmissores de informações! Se não são, temos que recoloca-los no seu lugar de dignidade do mestre... Espero estar errada e atrasada no tempo em meu olhar. Mas às vezes acho que a educação anda ainda como um ato evangélico, no mal sentido da palavra, uma espécie de voto de pobreza forçado. E ai, muitas pessoas realmente vocacionadas terminam cansando e desistindo.


Na família

Na família, a mulher neste ponto começa a ter alguma ajuda e mais suporte na função de educar. A presença cada vez maior do pai na educação das crianças é, por exemplo, um elemento novo que está acontecendo cada vez mais e que ajuda muito a diminuir o conflito. 

Criança precisa de mãe. Só que para ser mãe não precisa ser mulher, necessariamente. Todos nós temos a energia feminina assim como a masculina. Este é um tema complexo, mas intuitivamente acho que todos sabem do que estou falando. É tudo uma questão de dosagem e de forma de atuar tais energias. A energia masculina nos ajuda a agir no mundo externo. A energia feminina nos ajuda a conquistar e reinar no mundo interior. A maturidade emocional equilibra estas energias em cada pessoa, de uma forma única.

Essa qualidade de ser mãe – estar ligado – pode ser vivida tanto por um homem como por uma mulher. E a própria ligação da mãe com o filho, se não for temperada por um pouco de pai (ou energia paterna, que também existe na mãe), pode virar superproteção. A presença do pai ajuda a mãe parar, pensar, distinguir o que é dela, o que é do filho, separar a intuição materna da realidade. O instinto paterno enxerga mais as qualidades de força mesmo no filhote muito pequeno e confia que ele não vai se desmanchar assim à toa... Até com chinpanzés é assim: o pai joga o bebê para a árvore, a mãe corre e o segura. O bebê precisa dos dois movimentos para crescer bem.

Para que o pai possa entrar na cena, a mulher precisa aprender a dividir espaço, território, poder. Na família antiga, a mãe tomava conta da educação dos filhos e o pai ia ganhar dinheiro, era o pai provedor e só, era mais que suficiente. Hoje a cena mudou. Os papeis evoluíram. Ambos os pais provêm e ambos cuidam da prole. A mãe precisa aguentar deixar o pai cuidar de um jeito mais masculino, mais do jeito dele. A menos, é claro, em casos particulares e extremos, em que o pai perca o ponto e seja cruel ou algo assim. Mas, casos extremos é outra coisa! E neste caso, se a mãe também estiver fora do prumo, quem tem que entrar e equilibrar, proteger a criança, é o pai.

Na medida em que a criança vai crescendo, a mãe naturalmente vai tendo mais espaço para ausentar-se, trabalhar. Mas, quando se trata de bebê, nos primeiros meses, aí não adianta querer inventar muito. Aí, a mãe deve prolongar ao máximo possível sua presença junto ao filho. E, depois, escolher muito bem sua substituta. Porque ela continuará sendo a responsável. Está trabalhando, tudo bem, mas está olhando, cuidando, telefonando, sabendo o que comeu, que cocô fez, como é que está seu estado emocional... Tem que estar presente, mesmo quando ausente, por assim dizer. 24 horas!

Claro que não vou receitar para todos, mas na minha profissão pelo menos eu conseguia fazer isso. Quando sentia que um filho estava num momento especial, precisando de mais de mim, dava um jeito de ficar mais. Numa época, por exemplo, meu bebê estava com dificuldade para dormir. Senti que era porque eu estava ficando longe dele mais tempo. Ele estava com quatro meses, um momento importante. Eu dava todas as mamadas, mas acabara de voltar a atender um pouco no consultório. Entendi que o pequeno estava ‘pedindo’ para eu ir mais devagar. Dei um jeito de ficar mais com ele, até o problema passar. Atendi ao ritmo dele. Isto é essencial: com um bebê, ele é que dirige a orquestra. A gente tem que dançar no ritmo dele, girar em torno dele. Aos poucos, se tudo estiver correndo bem, ele mesmo, o próprio pequeno nos ‘avisa’ que já podemos mudar o passo e ele vai gostar de começar a dançar a nossa dança... Mas como calma!

Então, o olhar da mãe, a intuição materna, bem praticada, irá avisá-la quando o bebê a está chamando, o que está pedindo. Isto é natural e simples. Basta estar antenada, ligada, amando... Aí a gente capta os momentos importantes do filho e, claro, comparece!

Certo dia, não pude atender um cliente meu, que tinha vindo de Campinas, porque um dos meus filhos estava com gripe. E expliquei: não é qualquer gripe, não é gripe, tem um pouco de febre, ele está um pouco deprimido e precisa de mim. Isso até fez muito bem para o meu cliente, cuja história de vida não levava muito a acreditar que alguém pudesse estar mesmo ligado em outro. Sua mãe jamais lhe dera esta qualidade de amor. Ele, por exemplo, nunca se permitia faltar ao trabalho, por motivo nenhum, nem que ele próprio precisasse muito disto. Filhos então, nem pensar! Terceirizava! Não conseguia ser boa mãe para si próprio; não tinha este modelo.


Junto ao filho, mas frustrada.

A maior ou menor presença junto ao filho vai depender de muitos fatores concretos. Mas ser mãe implica sempre numa administração enorme, isso não há como negar. Uma coisa é ter mãe que está fora, trabalhando, e outra coisa é sentir-se abandonado. Se o filho sente que a mãe, de qualquer forma, está prestando atenção nele, que está presente quando ele mais precisa, isso faz uma grande, decisiva diferença. A mãe pode estar o dia inteiro com o filho e frustrada, porque não está tocando sua vida, com um monte de raiva inconsciente por causa disso, com dificuldade de ter o coração aberto para ele. A mãe que se permite ter sua vida pode sentir-se também muito mais livre para amar, para estar com o filho numa boa. Quem consegue dizer um ‘não’ essencial para si mesmo, tem um ‘sim’ mais cheio de valor. Eu não acredito que uma pessoa frustrada, sentindo-se vítima do destino por usar seu tempo com o outro, um filho no caso, possa estar bem posicionada como mãe, conseguindo oferecer um amor genuíno à criança. A qualidade de amor que vem daí, não pode ser boa. Amor anda junto com prazer, mesmo no sacrifício.


Só posso dar o que eu tenho

E ser mãe é, também, saber viver o movimento de separação, do afastar-se de algo para chegar a um outro algo. Perceber, por exemplo, que está na hora de dar espaço para que pai e filho se relacionem mais entre eles. Para que os filhos fiquem mais com os amigos, ou com a própria escolinha. E também para que ele descubra os seus próprios recursos, cuidar de si mesmo; ou de aprender a ficar sozinho, gostar de sua própria companhia.


Dançar a dança da vida inclui saber separar-se

A vida consiste em movimentos de aproximação e de separação, isto é, entrar numa fase, vivê-la, e saber deixá-la ir-se quando a hora chegar. Somente assim a gente fica livre para entrar no novo, evoluir.

Há vantagens na separação. Tem um significado importante para a criança lidar com uma certa ausência da mãe, saber que ela vai e volta. Uma vez entre três ou quatro anos, um dos meus filhos estava com dificuldade de adaptação à escola. Eu então o acompanhava até a escola. As professoras eram ótimas, eu tinha confiança na equipe toda, sentia que meu filho estava muito interessado em ficar na escola, em curtir as outras crianças. Mas ele estava com muita dificuldade também em se separar de mim. Então, quando eu me afastava, ele chorava. Não queria que eu fosse embora. Mas, quando eu aguentava me afastar, ele chorava um pouquinho e depois ficava bem. Neste momento de sua vida, se não tivesse aguentado me separar dele, eu o teria prejudicado. 

Aí é que eu acho importante a gente estar atento aos momentos que a criança está vivendo. Não querer ficar na escola pode, de fato, significar que a criança não está bem emocionalmente, que está demais para ela, naquele momento, aguentar o tranco. Eu percebi claramente que não era esse o caso do meu filho. Ele estava precisando relacionar-se com outras crianças e queria isto, estava pronto. Mas estava com medo... De crescer, de dar o passo seguinte... 

Crescer às vezes inclui perder alguma coisa para ganhar outra. Eu percebia que alí, cabia a mim ter a coragem de desgrudar-me dele, de deixá-lo na escola. Ele estava emocionalmente bem, ia aguentar sua parte de perda – menos mãe e mais amigos! Uma troca essencial para sua evolução emocional, para entrar no mundo, nascer!
E um dia eu tive que afastar as mãos dele, que se grudavam em mim. Nossa! Tive que ser macho pra valer! Fui! Ele ficou lá na escola, eu fui chorando para casa. Ele chorou um pouquinho e logo foi brincar numa boa. Eu chorei mais do que ele.

Por isso é muito importante discriminar o que é culpa da gente e necessidade da criança. Isso exige lucidez, maturidade e uma boa relação com o filho.
Exige muito amor. Quando você ama, você olha o outro, a necessidade real do outro. Não olha tanto para si, porque isso é uma grande fonte de culpa: estar muito preocupada em ser boa mãe; preocupada com a imagem que a gente tem de si mesmo como mãe. Mãe é um papel muito valorizado na nossa cultura. Mulher que não é boa mãe é um monstro. Então, muito da culpa vem das necessidades narcisas, de precisar sustentar nossa imagem de ‘ótima mãe’.


Verdades e mentiras 

E, prisioneiros deste lugar de ‘ótima’ mãe ou pai, a gente empurra para cima das crianças um montão de lixos psicológicos. Fazemos promessas impossíveis porque confundimos o que queremos e o que podemos. Jogamos para nossos filhos os nossos projetos de vida. Principalmente, talvez, os que não conseguimos realizar. Colocamos nas mãos e nas costas deles serem aquilo que queremos ser, o que achamos que é bom ser. E não temos olhos para de fato olhar a criança e enxergar o que ela é e o que de fato precisa. Então, por exemplo, se eu sofri privações econômicas, mimo meu filho, encho ele de presentes, não lhe nego nada! Mas, olhe bem! Ele não precisa de tantos trecos, você é que precisou, no passado! Deixe-o viver a vida dele, descobrir ele mesmo o que é e o que é bom para ele. Fique ao lado, mas não empurre!

Ai sim a relação fica mais limpa. Não há tanta sedução para sermos os bacanas da cena. Aqui você, mãe ou pai, está sendo mais centrado. O contrato com a criança é mais honesto: ‘ Dou o que tenho, com todo meu amor. O que não tenho, não posso dar, limitação minha. Mas sou uma pessoa e um pai ou mãe que está profundamente comprometido em me tornar uma pessoa melhor. E você pode contar comigo sempre, dentro de meus limites ...’ É um belo contrato! Você não acha?  

Sem isto, fica uma relação manipuladora. Todo mundo manipula. A mãe ou o pai tem rabo preso pois precisa da criança como sua propaganda, como seu troféu de ótima mãe ou pai. A criança, no fundo, no coração, sabe que está sendo usada como propaganda do ego materno ou paterno. Um rolo só. Todos perdem a liberdade. E muito mais...

Quantos jovens eu vejo que vivem a vida ao avesso, sendo um fracasso, só para tentar esclarecer esta mentira que vivem com os pais! Tornam-se um ‘retrato vivo’ do fracasso daquela mãe vaidosa, ‘perfeita’, e que com seus cuidados excessivos ‘contrataram’ filhos que sejam testemunhos de seu sucesso como mãe. Sendo um fracasso, eles jogam na cara dela que afinal, não é bem assim! Não fazem isto por maldade. É que esclarecer estas coisas, confusas, de que sou eu, quem é ‘ela’ ou ‘ele’, e fundamental para a criança e principalmente o jovem conseguir ser ele mesmo, confirmar suas percepções, saber o que é fantasia e o que é realidade.

Diante de uma mãe ‘perfeita’ e ‘sacrificada’, o filho tem poucas saídas. Pode virar um bonzinho, de boca calada, culpado, e certamente com muita raiva embutida, não dita, maldita. Ou vira um rebelde, sem saber bem ao certo qual a causa, confuso, mas sabendo, em suas entranhas, que tem que fazer alguma coisa para esclarecer o que é o que e assim saber quem é ele, afinal!


Limites 

Portanto, dá sim para compatibilizar a vida profissional e a maternidade. Mas não dá para negar ou negociar certos limites absolutos, caso você queira priorizar a maternidade.

Como psicóloga, eu só posso dizer que até dois anos acho muito lamentável que a mãe tenha de trabalhar em tempo integral. A menos que ela consiga um bom substituto, o que não é fácil. Pelo menos esta mãe precisa saber que, até pelo menos dois anos, administrar o filho de longe é mais complicado. 

O dois primeiros anos que são a base da nossa vida e marca definitivamente nosso caráter. É importante saber disto. Portanto, dê tudo nestes primeiros tempos. Tudo o que você tiver para dar. Priorize ser mãe. Os processo evolutivos têm um tempo definido. Fases. Consertar depois é difícil. Melhor prevenir. Então, a receita é, muita presença. De boa qualidade, é claro.

No começo a mãe tem que ser um inesgotável centro de mordomias para o filho. O bebê recém nascido ou nos primeiros meses chora? Deixar chorar senão se acostuma mal? Coisa nenhuma. Ele chora porque está sofrendo alguma frustração e precisa da mãe. A realidade já se encarrega de frustrar o bebê. Ele já sente frio, calor, fome, dor. Ele precisa é de muita mãe junto dele. Mãe seguindo plenamente a intuição de que não deve deixar sofrer. O bebê neste momento começa a lidar com o fato de que ele e a mãe não são uma coisa só. E quanto mais coisas boas ele obtém na relação com a mãe, quanto mais vivências gostosas, com mais saúde emocional ele vai enfrentar a frustração e a raiva pelas coisas ruins. Se ele tem poucas compensações, a raiva torna-se coisa muito ameaçadora, que ele não consegue elaborar bem. Quanto mais satisfatória for a relação nestes primeiros meses, melhor vai enfrentar a separação quando a mãe voltar ao trabalho.

Faça o que puder. E depois, tente não ter culpa. Culpa só atrapalha. É uma emoção perdedora;  Tristeza sim, pois que esta é saudável. É triste sim largar um bichinho novinho e ir trabalhar. Mas o amor não se interrompe. A relação existe o tempo todo se houver qualidade.

Lide com suas limitações. Busque dentro de você uma boa mãe para você mesma, e aceitará melhor suas limitações e terá forças para melhorar a cada momento da vida.

Lembre-se que se seu coração está pleno de amor pelo seu filho, esta energia chega até ele. E ela mesma te deixará o tempo todo ligada a ele, numa espécie de cordão umbilical sutil, que irá se transformando à medida em que seu filhote vai crescendo, até que você, na adolescência, o vê voar longe, para a vida maior.


Dar um tempo na vida profissional para curtir a maternidade?


Beleza! O melhor dos mundos! Se você puder e tiver coragem, parabéns. 

Se for por escolha e não por culpa, vai dar muito certo. Maravilha.

Mas se for uma desculpa para não encarar seu medo da vida lá fora... Problema! Melhor uma mãe de meio período mas realizada e feliz, do que uma que fica em casa dependurada no filho, por ter medo de encarar a vida profissional, de não ser bem sucedida, e que está usando a criança como desculpa. Lembre-se que a profissão-mãe tem tempo limitado.

Alguém já disse que ‘ser mãe é a difícil arte de se tornar desnecessária’. E assim é. O filho vai crescendo e aí a arte da maternidade é abrir a porta e ficar na retaguarda para o jovem ir para a vida. Parir o filho no mundo! Deixá-lo buscar a si mesmo, filho de Deus e não mais somente dos pais.  A relação não morre, pelo contrário, mas vai se transformando. O amor cumpre seu papel de oferecer a alegria de ver o filho, lá, no mundo, vivendo sua vida. O mundo fica mais rico quando a gente tem um filho ‘lá’. O que resta? Tudo! Resta a relação, que é tudo e agora não depende mais de distâncias físicas. 
 
Agora, que a mãe aproveite ao máximo os primeiros meses de presença integral junto ao filho. Aproveite para estar muito presente mesmo. Para dar amor mesmo. Bobagem isso de achar que a criança, às vezes, deve ser frustrada para aprender. No começo a mãe tem que ser um inesgotável centro de mordomias para o filho. O nenê chora? Deixar chorar senão se acostuma mal? Coisa nenhuma. Ele chora porque está sofrendo alguma frustração e precisa da mãe. A realidade já se encarrega de frustrar o bebê. Ele já sente frio, calor, fome, dor. Ele precisa é de muita mãe junto dele. Mãe seguindo plenamente a intuição de que não deve deixar sofrer. O bebê neste momento começa a lidar com o fato de que ele e a mãe não são uma coisa só. E quanto mais coisas boas ele obtém na relação com a mãe, quanto mais vivências gostosas, com mais saúde emocional ele vai enfrentar a frustração e a raiva pelas coisas ruins. Se ele tem poucas compensações, a raiva torna-se coisa muito ameaçadora, que ele não consegue elaborar bem. Quanto mais satisfatória for a relação nestes primeiros meses, melhor vai enfrentar a separação quando a mãe voltar ao trabalho.


Ela chega devendo e quer pagar

E é bom lembrar, finalmente, que a mãe permanentemente atacada pelo problema da culpa não deve atribuir isso ao filho. Esse problema está ligado mais à sua personalidade.

Há mães, por exemplo, que acham que o que dão para os filhos é sempre pouco. Há algum tempo atrás, eu estava lidando com uma mãe assim. Ela trabalha fora e cuida muito bem dos filhos. Sempre achando que dá pouco. Tentei mostrar que é o contrário, que ela dá demais. O que ela precisa é aguentar pôr limites, dizer ‘não’ para os filhos, ela própria existir naquela relação. Só assim os filhos conseguirão notar que existe gente ali, não uma fábrica impessoal de mordomias. E os filhos dela são, inclusive, crianças muito sem limites, birrentas, vivem exigindo e xingando. Ela nunca diz ‘não’ porque está sempre tentando lavar a culpa de não estar o dia inteiro à disposição deles. Aí perde a noção da sua necessidade de trabalhar e da real necessidade dos filhos. Ela não aguenta assumir sua própria realidade.

No dia que conseguir vai ficar tudo mais limpo, para ela e para os filhos.
Mãe que fica cedendo tudo para os filhos vira aquele pai tradicional que chegava em casa, brincava um pouco, dava um docinho – e quem educava era a mãe. Se a mãe faz isso, quem vai educar? A empregada? Ou a TV?

No caso que estou relatando, sinto que os filhos cutucam, provocam exatamente para pedir uma definição dela. Sentem que a mãe é muito boazinha, mas só porque não assume a raiva dela, que está achando errado e não fala. As mensagens todas ficam veladas, porque o importante para ela é levar culpa. É dar uma de boazinha, seduzir a criança. E ficar de vítima. 

Ela poderia chegar e dizer bem claro, para si mesma e para os filhos: trabalho mesmo e não estou devendo nada pra vocês e nem vocês pra mim. Mas não. Ela já chega em débito e tenta apagá-lo – seduzindo.  A criança aproveita, ultrapassa todos os limites e, em vez de agradecida, fica apenas malcriada, agressiva, destrutiva. A mãe nem se defende, porque sente-se cheia de culpa. E o ciclo continua: a mãe se mostra tão destruída que é a vez dos filhos ficarem com culpa. 

No que ela consegue ser mais verdadeira, quebra este jogo complicado. Essa é a típica mãe que não está centrada na real necessidade dos filhos, mas em sua própria imagem de boa mãe. 


As sábias lições da mamãe-passarinho

Quando eu estava no primeiro ano de faculdade, li sobre uma experiência feita com passarinhos pelo famoso etólogo austríaco Konrad Lorenz, cujos detalhes hoje me escapam, mas cujo sentido básico é muito interessante.

Lorenz observou que um filhote de passarinho, ao quebrar a casca do ovo, considera mãe o primeiro objeto que se mexe ao seu lado. Ele, então, experimentou tornar-se mãe de alguns filhotes. Mal ele se aproximava, os passarinhos abriam o bico para serem alimentados. Um dia ele teve de se afastar repentinamente e, ao voltar, imaginou encontrar os passarinhos mortos de fome, já que não sabiam alimentar-se sem sua ajuda. Para sua surpresa, os filhotes estavam se virando muito bem – sozinhos! 

Lorenz repetiu a experiência de vários modos e chegou a algumas conclusões. Se a mãe, por exemplo, não se afasta nunca – imagine uma mãe mecânica sempre ali, disponível – os filhotes nunca aprendem a comer sozinhos e, na idade adulta, separados da mãe, morrem de fome. A separação, portanto, é essencial para o amadurecimento. Só que há um tempo adequado para a mãe se afastar do filhote. Se é cedo demais, ele não aprende a se alimentar sozinho. Se a mãe é desleixada, alimenta mal os filhotes, submete-os a duras privações, eles também morrem de fome e não aprendem a comer sozinhos.

Estas pesquisas parecem sugerir que a separação do filho é algo necessário, mas depende do momento, da hora e da qualidade de atenção que você dá quando está junto dele.

Hora certa e modo certo de separação

Outro exemplo que nos vem dos pássaros, através dos estudos de Konrad Lorenz: o filhote tem um momento de prontidão para aprender a voar. Se passar esse momento, vai ser mais difícil. A mãe então não vacila. Se a hora chega e o filhote se recusa a sair do ninho, a mãe destrói o ninho. O bichinho cai e, na queda, em geral aprende a voar. 

Só que a mãe-passarinho está geneticamente programada para este momento. Com gente é mais complicado. Aí se vê de tudo. Pais que vivem paparicando o filho até aos trinta anos porque o coitadinho não sabe se cuidar. Pais que querem jogar logo, antes da hora, a criança na vida. É a real ligação amorosa com o filho – o estar centrado de que falava antes – que vai dar a nós, humanos, aquela genética lucidez de mãe-passarinho. Aí não tem receita.

Em todo caso, estar sempre junto da criança pode transformar-se numa forma sutil de dominação. A criança nunca vai experimentar-se e descobrir seus próprios recursos, suas próprias forças. Cresce com a sensação de que sem a mãe ela não vive. A mãe passa a ser fonte de tudo e ela se sente sempre tão pequena diante de tanta generosidade. Mais tarde, como adulta, esta pessoa tende a estar sempre procurando quem a sustente financeiramente ou energeticamente. É, muitas vezes, capaz de muitas coisas, mas não acredita em si. E o pouco que faz atribui aos outros – ao marido, ao amigo, ao terapeuta. Também pode ter relações afetivas muito conflitivas. Aprendeu da mãe que amar é estar sempre grudado e renunciar a tudo o mais. Por isso, tem dificuldades de se entregar a uma relação amorosa com alguém ou com os próprios filhos. Ao aproximar-se do filho já está querendo, inconscientemente afastar-se para não se apagar como pessoa, como fez um dia sua santa mãe. Ao mesmo tempo, afastar-se para ela significa abandono. Quem ama fica sempre perto.

A situação se complica. Entrega-se, tem medo de se apagar. Afasta-se, não é boa mãe. É o tipo de pessoa que tem culpa, não só por trabalhar fora, mas especialmente pelo tempo que dá a si própria, para seu lazer e seu crescimento. Diversão, só se for com o filho grudado. Resultado: muita raiva inconscientemente deste pestinha que lhe rouba a vida. Uma raiva que só pode ser inconsciente, porque imagina ter raiva do próprio filho! Jamais! Que diria sua mãe, tão abnegada? Só que sua mãe também vivia com raiva inconsciente e bem que ela, mesmo criança, de muitas formas pagava por isso. À medida que ela trabalhar melhor esta sua relação com o modelo de mãe dentro dela, vai dar mais tempo sem culpa para si, para seu trabalho, seu crescimento. Ganha o filho, que vai ter, quem sabe em menos tempo de presença física, uma mãe mais amorosa e feliz.

Quando uma mãe vai sair de casa para trabalhar absolutamente tranquila e sossegada? Nunca. Certo conflito, insisto, sempre vai haver. E sossego absoluto é algo meio incompatível com a vida. Uma certa dose de angústia, de ansiedade faz sempre parte da busca de soluções. Penso que cada mãe deve ver com sinceridade o que tem para dar, o que quer e o que pode dar. E aí centrar-se nos filhos, de todo o coração, e assim perceber, com mais leveza, os diferentes momentos do desenvolvimento deles, suas necessidades reais. E, mesmo de longe, nunca renunciar a estar ligada, à administração atenta e sensível das horas em que não está em casa, sob pena de abandono. 

A coragem de crescer
Uma nova dimensão no caminho de evolução pessoal. Desenvolve a intuição, o entender seus sonhos.
Maria de Melo
O sertão é o mundo e o mundo é o sertão se buscarmos o nosso cerne; somos a humanidade, uma só alma.
Atividades
AGO/2015 - Grupo de Análise Reichiana: "realmente um curso avançado dentro do quadro da psicoterapia no mundo moderno."
Consultório: Alto de Pinheiros - São Paulo - Tel: (11) 3021-0003 - Cel: (11) 99229-2293
Maria de Melo