Maria de Melo

Artigo: É possível mudar a cabeça sem mexer no corpo?




É possível mudar a cabeça sem mexer no corpo?

 
Maria de Melo

Pensar, sentir, tocar – em tudo o que fazemos está presente o corpo.

Hoje, eu não imaginaria mais trabalhar com o ser humano sem ter como
caminho o corpo. Não se trata de jogar fora a cabeça, mas de integrá-la às
outras partes do corpo. As pessoas só cabeça costumam cair num racionalismo estéril. As só coração terminam num sentimentalismo burro. 

Na terapia, o perigo é ficar numa conversa só de cabeça, que resulta em idéias muito bonitas, só que a vida vai ficando na mesma. Não acredito em transformações que não mudem a nossa atitude corporal diante da vida.

Hoje mesmo eu refletia sobre isso diante de um paciente. Trata-se
de uma pessoa muito bem sucedida profissionalmente, mas que tem ainda
alguns problemas. Além do medo de andar de avião, sente-se mal num
ambiente onde não conheça ninguém e, durante um bom tempo, não foi capaz de decidir-se entre duas mulheres. Ao analisar seu progresso na terapia, ele observou: eu agora estou bem, agora penso mais sobre as coisas. Ao dizer isso, levantou ligeiramente a cabeça e o olhar se perdeu lá em cima, numa postura típica de quem fala sem emoção, desligado do corpo.

Eu observei: “então você não progrediu muito, pois, quando chegou aqui só pensava, já resolvia tudo na cabeça, e se refugiava numa faixa muito lógica e curta de si mesmo... Ele entendeu e corrigiu logo: “não, eu quero dizer é que agora vejo as coisas do jeito que elas são”. E, ao dizer isso, mudou sem perceber a posição da cabeça. Começou a olhar mais horizontalmente, seu olhar encontrou o meu. Quer dizer, deu ao seu pensamento uma qualidade corpórea, botando coração e realidade no que dizia. Para um terapeuta corporal, estes detalhes são muito importantes.

Para nós, a posição da cabeça num determinado momento é tão importante como aquilo que possivelmente está dentro dela. Só com a mente, desligada do seu coração e suas emoções, da barriga e seus instintos, a pessoa não vai muito longe na busca de si mesmo.

Só com a cabeça, como vai saber, por exemplo, a quem ama, se amor tem tanto a ver com afetos, com impulsos?

Por isso, é difícil levar alguém a se conhecer sem levá-lo também a integrar-se com o seu próprio corpo. Não basta mudar o jeito de pensar, é preciso mudar o jeito de ser, a postura diante da vida. E postura aqui significa corpo; o jeito com que o nosso corpo se coloca diante da vida!

Conhecer-se é um velho sonho humano. Mas é impossível conhecer-se bem só de cabeça, sem ver como estão nossos músculos, nossas vísceras, nossos ossos, nosso esqueleto, nosso jeito de caminhar e de olhar.

Parar, olhar para cima (como aquele meu paciente) e pensar, não é a melhor atitude em matéria de autoconhecimento. É uma atitude até perigosa.

Porque o pensamento sozinho pode tudo. Sem contato com a realidade, você pode confundir o que é com aquilo que gostaria de ser. O corpo tem
informações mais precisas sobre nossa maneira de ser. Ele nos coloca questões bem concretas: como é que eu ando? Como é que estão os meus ombros?

Como respiro, como olho os outros? Há pessoas que têm os ombros arqueados, os braços caídos, sem energia, a cabeça baixa. Uma pessoa assim pode pensar que é muito forte, mas o seu corpo está dizendo outra coisa.

Ou alguém pode pensar que é muito humilde. No entanto, anda sempre com o queixo levantado... Pode achar que é muito doce. E de repente, diante do espelho, se descobre com um olhar duro... Ou achar que é muito soltinho, muito comunicativo e, vai ver, tem o peito duro, o corpo todo enrijecido.

Quem não sabe como realmente é, não se transforma. Nossos pensamentos não dizem tudo de nós. Nem mesmo nossos atos. Uma pessoa, por exemplo, pode praticar muitos atos sexuais por semana. Mas, com que qualidade? Qual a afetividade que ela realmente deixa rolar nesses atos? Onde está o seu coração naquele momento?

O submisso quase não respira.

Outra questão que gostaria de lembrar aqui é que, através da terapia, as pessoas buscam se conhecer melhor, conhecer melhor o seu passado.

Mas fica uma questão incômoda: desse maior conhecimento brota algum tipo de energia capaz de mudar o nosso presente? É uma questão importante, porque não podemos mais mudar a mãe ou o pai que tivemos, nem apagar fatos acontecidos. Aí, é preciso levar em conta que o passado é um degrau de uma escada que cada um ainda está subindo agora. Se a vida ficou meio amarrada num ponto lá atrás, de nada adianta apenas descobrir o culpado. A simples busca do culpado não dá energia para a transformação do presente. Só é importante voltar ao passado para ver como se reagiu emocionalmente, num determinado momento doloroso, e que marcas dessa
reação estão presentes até hoje no próprio corpo. Porque possivelmente essa atitude está se repetindo hoje, em outro momento da vida.

Volta-se ao passado para entender melhor o que aconteceu e assim libertar uma certa energia presa. Entende-se primeiro mentalmente, examinando o problema de diferentes ângulos (de que outros modos eu poderia ter reagido?) Com isso, vislumbram-se outras maneiras de ser e já se quebra um pouco a reação estereotipada. A reação daquela época está de alguma forma implantada no corpo. É importante ver como. Diante de uma mãe ou de um pai opressivos de que maneira essa pessoa reagiu? Quem sabe, fechou o peito, deixou cair a cabeça, prendeu os quadris.

Atitudes, como se vê, de submissão. E até hoje ela não pára direito em pé, não fica ereta, não tem energia para agir de forma menos submissa. Como é que ela se transforma? Como recupera a energia perdida? Transformando este corpo onde estão as marcas do passado! Vendo como ainda está contraído e como vai fazer para descontraí-lo. Ela não vai deixar de ser emocionalmente submissa enquanto seu corpo for um corpo submisso. É preciso quebrar, ao mesmo tempo, velhas estruturas emocionais e corporais.

Dou um exemplo para ficar mais claro. Quando criança, uma pessoa não foi nutrida do afeto, da atenção a que tinha direito. Hoje expressa essa carência através do corpo desenergizado, e tem momentos de muita depressão.

Não se sente com energia para buscar o que quer na vida, fica eternamente
esperando o leite e o afeto que não vieram. Ela como que segura uma energia que ficou no passado. O que fazer para mudar isso? Primeiro, entender o que se passou. Entender que um dia ela pediu, berrou, chorou pelo que necessitava e depois foi desanimando, descrendo, perdendo força para exigir. Hoje ela se revela uma pessoa que resmunga, que choraminga em vez de ir em frente e berrar seus direitos. Não tem energia também para enfrentar seu passado doloroso. Não tem nem estrutura corporal para conter a dor do reencontro com seu passado sem se desestruturar, sem virar líquido.

É através do seu corpo que ela terá de buscar essa energia.

Respirando mais, para começar, porque uma pessoa submissa quase não respira. Seu peito se movimenta pouco, o abdome também. O queixo está quase sempre caído, a língua presa no céu da boca, de tal forma que a garganta não deixa passar o ar. Estes são sintomas claros de uma pessoa dependente, que espera dos outros o alimento para viver. Tem sempre que ser sustentada de fora, é assim mesmo: raramente vai em busca de, volta na primeira dificuldade. Depende sempre de um pai, de uma mãe, de um marido, de trabalho, de álcool...

O primeiro alimento que uma pessoa nestas condições tem que
buscar é o ar – é simplesmente respirar melhor. Quem fica sempre à espera, não respira direito. Quem parte em busca do que quer, a primeira coisa que faz é mudar a postura corporal – bota o peito para a frente, abre a garganta, levanta a cabeça, as pernas se plantam no chão. Ganha, enfim, um corpo para buscar o que quer. Respira, se alimenta sozinha – vai em busca! Ela não volta ao passado para culpar, mas para entender melhor e se postar diferente na vida.

O dedo ainda vive?

Vamos começar por ele.

E aqui eu insisto: quem se transforma, transforma o seu corpo. Nós somos muitas coisas, mas todas elas acontecem no corpo e nele deixam marcas. Quando falo em abrir novos espaços na vida, quero dizer novos espaços também corporalmente. Mais espaço para o ar entrar dentro do peito e, principalmente, relaxamento. A razão é simples. Sempre que alguém perde espaços ou fica fixo num determinado jeito de ser, adquire contrações corporais crônicas. A pessoa submissa desde pequena termina se congelando numa determinada atitude de submissão.
 
Tentar uma nova forma de agir significa soltar estas contrações. Não é que o soltar em si transforme, mas possibilita a transformação.
Às vezes, a pessoa chega ao terapeuta e começa a contar todos os dramas que está enfrentando. Vai contando, contando e, naquele ritmo já meio desesperado, sinto que não sobra espaço para nada, nem para ouvir, nem para ver, nem para respirar direito. 

Hoje mesmo chegou uma pessoa assim. Contou,contou seus dramas e no fim concluiu: desse jeito não dá! 
 
Concordei e propus: “então vamos tentar outro jeito, assim você não se agüenta mesmo”. Vamos tentar um exercício de relaxamento. Mas aí é preciso muito cuidado. Porque uma pessoa neste estado ou está dura como prego, ou se solta e corre o risco de virar líquido, de vir abaixo. Ela precisa aprender a se conter, isto é, a caber em si mesma com sua dor sem se desestruturar.

Fiz com ela um exercício cujos detalhes não vêm ao caso.

Basicamente, ela ficava sentada, a coluna bem ereta, respirando bem e muito em contato com a própria respiração. Aos poucos, foi relaxando. Sempre mantendo sua estrutura corporal, foi relaxando, soltando suas emoções. Senti que algo mudara dentro dela. Quando abriu os olhos, já estava mais centrada em si mesma, já havia espaço para conversar, para que alguma coisa acontecesse. Antes, qualquer frase que eu dissesse ia se perder no redemoinho de dores que ela estava desfiando.

Sem a ajuda do corpo, confesso que não consigo me comunicar produtivamente com certos pacientes. Ontem, um deles chegou e disse que se sentia morto. Olhei para ele e parecia morto mesmo. O que eu vou dizer para um morto? Pedi que ele se deitasse. Ele estava duro, mas notei que mexia muito o dedo do pé. É por aí que eu vou começar, pensei. Pedi que prestasse atenção no dedo. Ele ficou meio irritado. Toda a vez que você pede para alguém quebrar um padrão estereotipado, a primeira resposta é a irritação, porque ele está habituado aquele padrão, que pode ser doloroso, mas lhe é familiar.
 
O fato é que, através do dedo, a vida do corpo daquele paciente foi aumentando. O dedo como que foi devolvendo a vida ao resto do corpo. E aí começamos a conversar, o que só é possível com uma pessoa viva. Só através do verbal, sem exercício nenhum, talvez eu chegasse ao mesmo resultado.
 
Mas ia levar mais tempo e liberar menos energia. E o importante é que, fora da sessão, este paciente aprenderá a entrar sozinho em contato com suas partes vivas.
 
Agora, eu queria alguém que me agüentasse.

Nossa cultura ocidental não ensina a ler o corpo e a entrar em contato com suas energias. É uma pena. Nosso corpo traz escrita toda a nossa história emocional. É muito importante ler esta história, porque é possível reescrevê-la. Vamos tomar um exemplo.

O caso da criança que foi cuidada por uma super-mãe, fica incapacitada para agüentar a frustração e está condenada a ter sempre uma mãe por perto. Depois, já adulta, ela vai certamente pagar preços enormes para ficar alugando mães pela vida afora. E vai revelar em sua postura essa falta de energia própria. Pode ter o queixo caído, a boca um pouco aberta de quem espera o alimento que vem de fora, os ombros virados para a frente, curvados, caídos. Às vezes, as costas tendem a uma ligeira corcunda por causa da contração dos músculos peitorais. Com isso, há uma grande tensão nas costas. E sempre a sensação de que os outros é que podem,não ela. 

Conheci uma moça que mamou até três anos e meio. Ela tinha uma super boa mãe, que lhe deu muita atenção. Mas o esforço enorme que ela depois teve de fazer para se desmamar! Esse desmame emocional só se deu ali pelos 40 anos, quando, entre outras coisas, teve de deixar de tratar o marido como mãe. E deixar de “amamentá-lo” também. Porque essas pessoas ou estão sempre sendo carregadas ou carregando, sendo amamentadas ou amamentando. Não imaginam outro tipo de relação que não seja a necessidade mútua. Agüentam todas as infantilidades dos outros para que eles também agüentem as suas. Ao passo que, numa relação adulta, o que deve predominar não é tanto a necessidade, mas a celebração, a alegria do estar junto. Daí a importância de aprender a se agüentar sem depender tanto dos outros. No exemplo que citei antes, a moça ficou irritada quando sugeri aquele exercício de respiração e relaxamento – de reencontro com sua própria energia. Ela reagiu: “passei a semana me agüentando, agora eu queria era alguém que me agüentasse”.

Ora, era isso que ela estava procurando há trinta anos. E com um fracasso atrás do outro. Primeiro, porque não é fácil encontrar alguém que nos agüente; depois, porque fica uma tremenda sensação de dependência. Através daquele tipo de exercício e de terapia, ela foi descobrindo que, sozinha, num momento de tensão, podia voltar a respirar, a ter energia, a raciocinar, sem a língua presa e o peito duro. Ela descobriu um caminho.

Um velho caminho, aliás. Há milênios, os orientais se valem do corpo para chegar ao espírito, à iluminação. A iluminação tem muito a ver com a energia do corpo. Na primeira vez em que me submeti a um exercício de inspiração oriental, o instrutor me disse: “coloque a ponta da língua levemente pousada no céu da boca, logo atrás dos dentes, e respire pelo nariz e pela boca”. Qualquer um pode fazer isso e perceber como passa a respirar bem, e quanto se solta. Com a boca travada e a respiração presa, a energia não flui e a gente não relaxa. Neurose e tensão muscular andam sempre juntas.

Claro que não é só na terapia corporal que se trabalha a neurose,
liberando as tensões musculares. Qualquer terapia faz isso. Querendo ou sem querer, toda terapia interpreta o corpo. Eu prefiro fazer querendo.

Acredito que só através da cabeça é difícil alguém ser transformado. Na cabeça a gente pode transformar as idéias. Mas uma pessoa é muito mais do que idéias.

 
Texto publicado na Viver, revista de Psicologia. Texto publicado na revista
Psicologia Atual.


"Maria de Melo Azevedo é psicóloga (CRP 06/1114) formada pela USP e psicoterapeuta reichiana, com mais de trinta anos de experiência em clínica individual e grupo."

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