Maria de Melo

Artigo: Pedra Estrelinha



(Publicado na Revista da Sovesp-Sociedade de Orgonomia e Vegetoterapia de
São Paulo, “Em Mãos)”


Em 1994, formava-se a primeira turma de psicoterapeutas da Sovesp. Na Serra da Cantareira o dia amanheceu iluminado e a casa de Maria Alice e Sérgio Vassimon, mais tuma vez, nos acolhia e se fazia cenário adequado, cheio de beleza e carinho, de um momento significativo para todos nós. O texto abaixo é o discurso de formatura que fiz para esta primeira turma. Decidi publicá-lo aqui para estendê-lo à toda a tribo de vegetoterapeutas da Eola, e compartilhar a esperança de que consigamos viver e conviver a partir de nosso cerne, do melhor de nós.
 

Ode à Amizade

A Pedra Estrelinha

Dentro deste espírito de compartilhar, gostaria de falar sobre esse lado tão importante na vida que é a amizade. E também, mais uma vez, quero dar um testemunho de como os sonhos constituem uma fonte de inspiração e sabedoria que facilita e enriquece a vida acordada.

Num determinado momento da minha vida estava acontecendo uma colheita deliciosa: dali a alguns dias haveria a cerimônia de formatura da primeira turma de alunos da Sovesp, uma instituição fundada e dirigida por pessoas muito amigas e que estavam por uns bons anos conseguindo manter um clima de fraternidade e colaboração , façanha realmente comemorável no mundo de hoje! E com aquele grupo de alunos eu mantinha uma relação profunda e íntima como professora, compartilhando com eles, num campo de muito entusiasmo e alegria, meus conhecimentos da arte de ser psicoterapeuta. Era um momento muito especial para mim. Algo a ser comemorado, uma celebração.

A turma me escolheu como “ madrinha” da formatura e eu deveria, na ocasião, fazer um discurso.

A festa seria no sábado. Era quinta feira e eu decidi que no dia seguinte ia preparar o discurso com o maior carinho. Já era tarde da noite e fui dormir pensando no que poderia dizer na cerimônia.

E de novo, os sonhos vieram me visitar e trazer um presente!
 
Foi assim.

Sonhei que eu, Maria Alice e Yvonne, minhas amigas e também co-fundadoras e professoras da instituição, estávamos a caminho da cerimônia de formatura. Meus filhos também estavam conosco e ainda o filho da Yvonne, o Pedro. Este grupinho tem algo em comum: são pessoas leais, capazes de sustentar seus pactos, dessas com quem a gente pode contar para o que der e vier. Coisa que, alias, independe da idade que, no caso, ia de l5 a 58 anos...

No meu sonho, a um certo momento paramos o carro e fomos dar uma voltinha para curtir a paisagem. De repente, avistei um lugar que me fez parar, extasiada! Nele eu vi algo que imediatamente reconheci como o presente que eu queria dar a cada aluno na cerimônia de formatura, à guisa de diploma. Eu me encontrava numa calçada em frente a um hotel. Esta calçada era uma obra de arte, um enorme e belíssimo painel, todo construído com pedras.

Escolhendo cada pedra por sua cores e seu formato, ou trabalhando o formato, o artista compusera a paisagem de uma noite estrelada.
 
Tive sorte de achar ali no chão, soltas, alguns exemplares destas pedrinhas-estrelas que formavam o grande painel. Peguei-as e coloquei-as na palma da mão, onde elas me pareceram pequeninas demais, embora ainda conservassem a beleza da forma e das cores. Mas, fora do seu contexto original, perdiam um pouco do seu encanto. Temi que vendo-as daquele jeito, na palma de minha mão, Maria Alice e Yvonne, não entendessem o símbolo de serem partes vivas daquela noite estrelada, de uma coisa assim grandiosa e
eterna. Fiquei bastante angustiada. Eu queria muito poder transmitir a essência da noite estrelada que eu vivi sob o céu do cerrado mineiro quando nos reuníamos no pátio para contar histórias.

Pensei então que se eu explicasse muito bem , minhas amigas poderiam captar a riqueza da minha vivência de infância e do símbolo de permanência que eram para mim aquelas minhas estrelas. Corri para elas e lhes falei com toda a intensidade possível:

- É isto aqui que eu quero dar aos alunos como diploma, como lembrança deste momento! Quero dar uma pedrinha assim para cada um...
 
Elas me olharam com olhos de quem não sabiam muito bem o que eu queria dizer. Me esforcei ainda mais:
 
- Essas pedrinhas fazem parte de um...

Vi que por ali não ia dar... Eu precisava oferecer mais elementos para que a aquelas pedrinhas não fossem umas simples pedrinha para elas , mas um símbolo de um céu uno, estrelado e eterno - como eram para mim. Tinha que criar um novo campo de entendimento para que fossem mais convincentes o símbolo das pedrinhas-estrelas.
Me aprumei toda, olhei bem nos olhos delas e comecei a falar, de um outro lugar, um outro nível, que as chamava para outro estado de consciência.

Eu as estava convocando para aquele círculo de cócoras que se formava no terreiro da minha casa sob a noite do cerrado e onde se contavam historias, sonhos e “ causos. Que fiz? Virei, no sonho, uma contadora de causos.

Falei o seguinte:
 
- Nós vamos separar depois da a formatura. Mas cada um de nós levará uma pedrinha dessas e sempre que a virmos ou pensarmos nela, nos comprometemos a lembrar do nosso grupo e do sonho do nosso grupo. Cada pedra faz parte de um conjunto, de um céu estrelado que somos nós.

Seremos uma confraria. Sagrada. Cada um será guardião do sonho do grupo. Em cada coração o sonho está plantado. Quem viver, o levará adiante, por si, e pelos que não conseguirem continuar e tiverem esquecido o sonho. E o sonho é aquele que Yvonne falou ontem, na reunião:

- Curar a dor humana. Jamais aumentá-la.
 
Largar qualquer coisa que tiver se disvirtuado por força da limitação humana e recomeçar a buscar a água cristalina do poço que alimenta e nutre. Vigiar para não deixar apodrecer, conspurcar, envenenar a água do nosso poço.

Este é o nosso juramento sagrado, eu disse, e a pedra estrelinha não nos deixará esquecer. E se um dia tivermos esquecido tudo, tudo, ela nos tocará de novo o coração. Se esquecermos tudo, e já nem mesmo nos lembrarmos que somos amigos, mesmo assim a pedra-estrelinha não nos deixará esquecer.”

Acordei.
 
Acordei e imediatamente me lembrei de uma tarde, uma tarde fundamental da minha infância.

A lembrança veio viva, com as cores e até os cheiros da tarde em que vivi minhas últimas horas na casa da minha infância no sertões de Minas. Dali a pouco o trem Maria Fumaça levaria a mim e toda minha família para São Paulo.

Três noites e três dias de viagem. Para pagar a viagem vendêramos tudo que tínhamos na vida. Parece que o dinheiro daria para nos sustentarmos por apenas uns dez dias na capital. Depois disto, só Deus sabia! Íamos em busca de nosso destino, sem passagem de volta.

Era hora da Ave Maria. O sino da capelinha tocou, encerrando o dia. Num gesto distraído, as pessoas faziam o ritual da Ave Maria. Os homens tiravam o chapéu. E todos fechavam os olhos por um momento, juntavam as mãos num gesto de oração, e faziam o sinal da cruz. E recomeçavam a conversa do cotidiano do fim do dia. A tarde morna nos envolvia, e as sombras avançavam prenunciando a noite. Sem luz elétrica, a chegada da noite ali era majestosa desde as primeiras estrelas.

Para mim, aquela seria uma noite muito especial. Daí a pouco estaríamos embarcando todos para são Paulo. Eu tinha 7 anos e pela primeira vez entendi que aquelas estrelas não me encontrariam mais lá. Olhei em torno, e percebi que aquele mundo se encerrava para mim. A tarde morna me envolvia. Tudo parecia perfeito, pleno.

Senti que eu precisava levar dentro de mim aquela tarde e também aquela última noite do sertão: o céu majestoso, os sons dos adultos de cócoras proseando sob o luar; o tremular da luz das velhas lamparinas, as cantigas de roda...

Como levar esta plenitude, esta pureza? Como levar as crianças pulando corda, o esconde-esconde, e no final, mamãe contando histórias e papai contando “ causos verdadeiros” ( pura mentira!) de suas andanças na noite encantada e às vezes mal assombrada do cerrado?

Ao meu lado, estava o símbolo maior daquele mundo: Zú. Uma pretinha de 7 anos, minha idade. Minha primeira amiga. Ela ria como sempre sua risada cristalina. Como sempre alguém a mandou ficar quieta: “Pretinha enxerida que não pára de mostrar estas canjicas!”

Olhei de novo ao redor, tentando colocar dentro de mim uma essência para levar comigo para a cidade grande , a São Paulo fria e dura que engole as almas.

De repente, percebi como fazer isto.

Peguei Zú pelas mãos, olhei nos seus olhos que só sabiam rir e brincar e a fiz ficar séria:
 
- Zú, você acha que a gente vai se esquecer?
 
- Acho que sim, respondeu cruel. As pessoas quando crescem se esquecem. A gente nunca mais vai se ver!

- Então vamos fazer uma coisa que a gente vai jurar por Deus que a gente não vai esquecer nunca nunca. Mesmo que a gente esqueça tudo, tudo mesmo, a gente vai jurar que nunca vai esquecer o que vamos fazer agora. Quer fazer isto?

- Quero, respondeu séria.

- Mas é jurar por Deus, certo? Tem castigo se a gente quebrar a jura.
 
- Tá bom!
 
Eu fui então a sacerdotisa do seguinte juramento:
 
Juro,
que nunca me esquecerei que hoje,
no último dia que passei em Curvelo,
na hora da Ave Maria,
dei a mão a Zú,
minha melhor amiga,
e que,
de mãos dadas,
demos um, dois, tres,
passos à frente,
chegamos e paramos no pé de manga,
e, de mãos dadas,
nos agachamos,
pegamos este galhinho de milho-de-grilo,
e que comi um,
e dei um para Zú.
Juro por Deus,
e pela vida de minha mãe,
que mesmo que eu me esqueça de tudo,
disso não vou esquecer.
Por um momento, Zú parou de rir, e jurou, solene.
E choramos.
E ai, eu pude deixar Curvelo mais sossegada. Levava uma marca dentro de mim.
Pensei, naquele dia, que eu nunca mais voltaria ali. Voltei sete anos depois. Eu e Zú tínhamos já 14 anos. Meu coração quase parou quando a vi de novo. Eu não esquecera nada, e nem do juramento.

Nem do meu amor por ela e pela noite estrelada do meu sertão. E ela, será que
se lembrava? Ou quebrara o juramento?

- Você se lembra, Zú, do nosso juramento?
Ela riu de novo, seu mesmo riso cristalino, mostrando as canjicas, com a mesma alegria contagiante.

Mas não, não se lembrava.
 
E eu a perdoei.
 
Talvez porque vi que ela ainda guardava a risada cristalina, a maestria de roubar mangas na casa do Zé dos Anjos, de subir no pé de cajú, e de mexer nas almas com sua alegria radiante. Ela própria ainda era uma estrela na noite do cerrado. Nem precisava se lembrar do que nunca tinha perdido.

Alguns anos depois, quando nós duas íamos fazer 18 anos, Zú morreu de doença de Chagas. A mim, que convivi com os morcegos tanto quanto ela, os bichinhos malditos pouparam. Fui escolhida para continuar viagem neste mundo.

Zú era a essência da infância e terminou com ela. Não sofreria as tentações dos adultos, a cobiça, o risco de esquecer a lealdade das estrelas, a verdade do sertão. Ela era o sertão.

Compreendi porque era eu quem tinha que me lembrar do juramento.
Eu é que vim para São Paulo. Eu é que tinha a missão de trazer meu sertão para a cidade de pedra. Eu é que precisava de ritos e de símbolos.

E foi tudo isso que tentei transmitir àquele povo que me rodeava naquela bela manhã, num daqueles momentos sagrados que a vida nos oferece, quando sentimos forte, pulsando em cada célula, que somos um grupo, que em algum lugar somos um mesmo destino, mesma direção – que fazemos parte de um todo maior que nos envolve num só corpo:

A pedra estrela do sonho de hoje é como aquele juramento feito com Zú naquela tarde. Um compromisso vindo da essência de cada um, de nunca trair o que há de melhor em
nós. E de cada um fazer sua parte, ocupar seu lugar no céu estrelado e juntos compormos uma noite iluminada que envolve a humanidade com uma luz mansa, sagrada. Vamos jurar ser a presença de luz na noite humana, transformando a escuridão em beleza e em sagrado:

Juro,
que serei com vocês,
Maria Alice, Yvonne, Umberto, Federico,
Pedro, Pedro, Felipe, Fred, Paulo,
cada um de vocês que hoje se formam na Sovesp,
e todos os que quizerem preservar a pureza do poço,
que nunca esquecerei que sou parte desta confraria
secreta e sagrada.
Amém.
 
Fiquei muito feliz porque consegui trazer Zú para nossa turma e a nossa festa. Zú só esqueceu o juramento porque não precisava dele para reviver nossa amizade em cada minuto dos seus breves dias. Eu é que precisei ser em São Paulo a guardiã teórica da nossa praxis. Nós urbanos e estudados é que precisamos de símbolos e juras para garantir a permanência dos nossos sonhos.
 
Meus alunos parece que gostaram do sonho das pedrinhas-estrelas e da história de Zu. Eu também fiquei feliz de poder religar as raízes e luzes do sertão para reforçar o amor e a fidelidade entre nós urbanos por necessidade e civilizados por obrigação.
Benvidos todos à confraria Sertão-São Paulo, que tem por finalidade religar o homem civilizado às suas origens, ao seu cerne.
 

"Maria de Melo Azevedo é psicóloga (CRP 06/1114) formada pela USP e psicoterapeuta reichiana, com mais de trinta anos de experiência em clínica individual e grupo."

A coragem de crescer
Uma nova dimensão no caminho de evolução pessoal. Desenvolve a intuição, o entender seus sonhos.
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AGO/2015 - Grupo de Análise Reichiana: "realmente um curso avançado dentro do quadro da psicoterapia no mundo moderno."
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