Maria de Melo

Coragem de crescer - entrevista por Eva Spitz



Portal para a transformação interior
Por Eva Spitz

Em Coragem de Crescer, Sonhos e Histórias para Novos Caminhos, Maria de Melo Azevedo reúne, em tom confessional, relatos pessoais, mitos gregos, cinema e literatura a histórias de casos de seus pacientes e amigos.

O objetivo, plenamente alcançado, é dirigir-se não só a terapeutas, mas a todas as pessoas que estejam em busca do autoconhecimento e de se transformar, evoluir. Maria faz isso de uma maneira extremamente afetiva, profissional e instigante, e ainda oferece ao leitor belas alternativas de procedimento terapêutico.

Como diz o conceituado psicoterapeuta paulista dr. Paulo Gaudêncio no prefácio, o texto do livro consegue ser ao mesmo tempo simples e atraente, fácil de ler, e ainda ter um denso conteúdo.

Com mais de 30 anos de trabalho clínico, Maria de Melo é uma das pioneiras em psicoterapia corporal no Brasil e ajudou a difundi-la em todo o País e no exterior através da prática e do ensino (psicoterapia individual e workshops em grupos). Autora de cerca de 40 artigos publicados em vários tipos de mídia, já participou de programas de TV para divulgar seu trabalho e co-escreveu, com outros colegas de profissão, o livro Vida a Dois (Editora Siciliano), grande sucesso de público.

Em Coragem de Crescer, Sonhos e Histórias para Novos Caminhos, esta mineira de Curvelo trata de questões fundamentais da psicologia e da vida com exemplos reais colhidos em sua prática analítica e na sua vivência pessoal. Sua referência principal é o trabalho com os sonhos como ferramenta de cura, que ela usa de uma maneira muito pessoal. Através de uma narração que mescla histórias da sua infância, fatos vividos no seu cotidiano e processos de tratamento com seus pacientes, a autora sinaliza para uma técnica terapêutica toda própria, em que pesam envolvimento, afetividade, ética e sobretudo uma postura de nada julgar e ouvir verdadeiramente o relato do outro, ajudando-o assim a recuperar a sua autoestima.

Maria de Melo Azevedo é, em si, a melhor referência para o que se propõe no livro: um exemplo de pessoa que passou muitas dificuldades na vida e, como atesta Paulo Gaudêncio no prefácio, conseguiu crescer, superar todos os obstáculos e se tornar vencedora.

Qual é o público que você gostaria de atingir com seu novo livro?

-Eu gostaria mesmo é de falar com todas as pessoas que estejam em busca de si mesmas, procurando conhecer-se para melhorar, evoluir. E mais ainda, pessoas que estão conscientes de que precisam melhorar a si mesmas como parte de uma evolução mais ampla que precisa urgentemente acontecer na Terra, para podermos reverter esta destrutividade que se vê em toda parte e que aprofunda o sofrimento individual, coletivo e do próprio planeta.

-Gostaria mesmo de ajudar a fortificar a rede de construtividade, de entrar em contato com toda gente que esteja vibrando nesse movimento. Acredito que toda ação individual repercute no todo e que não mudaremos a sociedade se as pessoas não se puserem a caminho para transformar a si mesmas, funcionarem no seu melhor e ampliarem esse melhor, a própria potência humana.

O que a prática clínica pode oferecer neste sentido?

-Na prática clínica vivemos uma profundidade e uma qualidade de encontro humano que me surpreende e fascina. Penso mesmo que talvez esse encontro terapêutico esteja hoje entre os mais plenos que a vida moderna oferece como possibilidade. E algo desse encontro, de seus frutos, poderia ser compartilhado com um grupo maior que é, na sua essência, um grupo de companheiros nossos, caminhantes do mesmo caminho. É este meu intento quando escrevo.

Qual é a sua formação terapêutica?

Hoje em dia acho que não cabe ficar limitado a um programa, como numa igrejinha, e não aproveitar toda a contribuição válida de outras abordagens que se integrem harmoniosamente à própria metodologia. Eu fiz psicanálise, como paciente, durante 10 anos, com uma ótima psicanalista. Aprendi muito e me ajudou. Mas senti que faltava algo que me parecia essencial. Fui em busca. Fiz uma formação em psicodrama e tornei-me uma didata nele, isto é, com formação para ensinar e dar supervisão. Ainda assim senti que faltava algo.

Fui em busca e cheguei à psicoterapia corporal. Não descartei os conhecimentos adquiridos. Eles fazem parte, são incluídos. Mas continuei a busca. E continuo, sempre.

O fundador da abordagem corporal é Wilhelm Reich, um discípulo de Freud. Ele colocou o corpo no contexto da psicoterapia. A linguagem do corpo começou a fazer parte e o psicoterapeuta desenvolveu o olhar. Freud enfatizou o escutar; Reich, o olhar, digamos assim. Outros discípulos de Freud também trouxeram colaborações essenciais, como Jung e a análise junguiana. E na modernidade, outros desenvolvimentos aconteceram nas ciências em geral e na psicologia, trazendo contribuições fundamentais.

Então, não acho legal hoje a gente ficar em escolas fechadas. Ainda me chamo de psicoterapeuta corporal, para facilitar as coisas. Mas realmente faço uma integração metodológica que inclui as novas conquistas científicas, como a teoria sistêmica e a teoria quântica na física.

Com toda a sua experiência clínica, você acha mesmo que pau que nasce torto pode desentortar?

Você define “pau que nasce torto” como uma pessoa que nasce em condições difíceis? Às vezes esta expressão dá a entender que se trata de uma pessoa que nasceu com um temperamento difícil, tendências destrutivas que já parecem estar ali... Acho bom distinguir isso. Existem diferenças individuais.

Hoje se fala muito no conceito de resiliência, que trata exatamente disso. Há pessoas que, jogadas numa situação difícil, conseguem virar o jogo, usando essas circunstâncias como impulso para o crescimento. E esta capacidade difere muito de uma pessoa para outra. Temos estudado muito quais condições podem ajudar as pessoas a terem maior resiliência, a reagirem melhor às dificuldades que a vida vai apresentando e a saírem delas com mais vitalidade, mais sabedoria.

Você acha que conseguiu passar essa mensagem no seu livro?

Este livro é exatamente uma tentativa de contribuir nessa direção, de oferecer conhecimentos que ajudem as pessoas a compreender melhor a si mesmas e ao seu entorno, o que as cerca, e de que essa consciência de quem é de fato, onde está e para onde vai possa oferecer mais instrumentos para elas acionarem dentro de si a fim de “se desentortar”. Uma coisa fundamental é consciência. Mas esta dificilmente ocorre se não houver uma ajuda de outro ser humano em algum momento da vida da gente. Por exemplo, no meu caso, minha mãe foi um fator importante. Uma mãe suficientemente boa (como diz Donald Winnicott, um psicanalista maravilhoso) faz uma enorme diferença para uma criança. Se não houve isso, mais tarde a gente precisará de alguma dose de olhar materno para integrar algo dentro da gente. No filme Inteligência Artificial, há um menino-robô que esperou acho que 2 mil anos pelo olhar materno. Sem aquele olhar, um mínimo de reconhecimento, ele ficou paralisado, congelado.

Mas esse tal olhar materno não precisa vir necessariamente da mãe; outro ser humano que viabilize um campo materno, as condições essenciais de um encontro verdadeiro, pode ajudar a virar o jogo, a desentortar o pau que nasceu torto. Uma boa psicoterapia, por exemplo, pode oferecer essa oportunidade. Um livro também, já que é um gesto que vem, muitas vezes, da alma do autor, oferecendo ressonância, empatia, canal de conexão, de encontro. Um livro pode ser uma entrega, um gesto amoroso. É o que eu gostaria de ter conseguido com este.

Outro fator fundamental para nosso amadurecimento como seres humanos é o que chamo de campo paterno ou a presença de um gesto paterno na hora certa na infância. Se houve isso, conseguimos internalizar em nós, como parte de nosso ser, uma energia de “retaguarda”, de “costas quentes” no bom sentido do termo – uma sensação de ter chão, de saber se proteger, de ter para onde correr nos momentos difíceis. Fortalece a sensação de pertencer, de estar incluído, de “ter família”, “ter sobrenome”, não estar sozinho e desamparado.

Ainda falta muito pai na nossa cultura. O homem e a mulher ainda não acertaram os ponteiros e o lugar do pai está pouco ou mal ocupado em algumas comunidades humanas modernas, incluindo a brasileira. Quero muito arrumar tempo para escrever mais sobre este tema, que acho importante.

O fato de se ter uma “mãe boa” é fundamental para o desenvolvimento de uma pessoa?

Quando falo em um olhar materno, digo um contato, um encontro de qualidade. É algo assim como se você desse a uma pessoa algumas doses de vinho de boa qualidade. A partir daí, você começa a “viciá-lo” no que é bom.

Você lhe dá uma referência que lhe dará condições de comparar e quando tiver que beber o vinho medíocre do seu cotidiano de vida, terá um insight para saber o que é ruim e o que é bom para si. No livro conto uma situação em que tentei dar esse trago de bom vinho à criança que estava sendo maltratada; tento deixar nela uma marca, uma referência de que existem outros jeitos na vida, outro tipo de tratamento, de respeito. Então, pau que nasce torto pode, sim, desentortar. Vamos à luta para conseguir isso. Senão, continuaremos plantando egoísmo e colhendo violência. E penso que essa ação de revitalização tem que ser dupla: no nível pessoal e no nível social. O nível pessoal é essencial e ponto de partida. Não adianta tentar corrigir os outros assim sem mais nem menos. É como tentar pentear seu cabelo através do espelho, tentando pentear sua imagem lá no espelho. Não vai funcionar. Sem uma ética individual o trabalho da gente é pobre, limitado.

No seu caso pessoal, a sua mãe foi superimportante...

O fato de eu ter uma família, principalmente minha mãe, uma mulher forte como um pé de pequi (leva 100 anos para dar fruto e é impressionante), fez diferença. Eu estava na rua o dia inteiro, mas tinha para onde voltar. Tinha lar mesmo quando as condições físicas eram precárias. Minha mãe hoje tem 98 anos de idade. E tem doença de Chagas há cerca de 60. Convive com os bichos de Chagas como conseguiu conviver com tantas outras coisas difíceis.
Enfim, eu tinha um cerne, uma ética profunda, que me dava referências.

Qual a relação do seu trabalho com o de Paulo Gaudêncio, que escreve o prefácio do livro ?

Paulo Gaudêncio – ele é uma figura! Minha relação com ele é importante para mim como pessoa e como profissional. Paulo escreveu vários livros e tem muita prática em programas de TV. Jovem Urgente fez muito sucesso no passado. Hoje ele tem um programa na TV Cultura e é sempre chamado por uma ou outra emissora para falar. É psiquiatra e um excelente psicoterapeuta.

 
Como profissional e como pessoa, é generoso e corajoso. Assume posições teóricas e práticas que estão de acordo com sua ética profunda, mesmo que as regras sociais vigentes, e que ele ache desumanas, o condenem. É uma pessoa muito livre e ética. O que aprendi com ele ficou para sempre comigo e muito do que sou como profissional e pessoa devo a ele. Tenho por ele, portanto, uma gratidão enorme – eu e muitos que ele tem ajudado.

Você foi analisada por ele?

Eu o conheci quando tinha 18 anos. Ele era considerado um excelente profissional e tinha uma tremenda abertura e generosidade para atender os militantes do movimento contra a ditadura naqueles duros anos. Ninguém tinha dinheiro para pagar terapia, é claro! Quando alguém “caía”, desmontava, um companheiro sempre tentava levá-lo ao Gaudêncio. Foi assim que cheguei lá. Desmontadíssima. Eu era militante política e estava exausta e bem confusa com tudo o que acontecia. Ele foi um porto seguro, um do tipo “olhar materno, paterno e de amigo” do qual falava antes. Um fator de alavancagem, de desentortar o pau que estava torto.

Fez um contrato terapêutico muito especial comigo e, por outro lado, muito típico do estilo dele: eu estava sem dinheiro, com estafa, sem condições de trabalhar.

Combinamos: eu ficaria devendo para quando eu mudasse a situação. Ele me disse: “Sei comprar ações (humanas) em baixa e vendê-las na alta!” Brincou, pois brincar é sua essência. Brincar de verdade e com verdades. Muitos anos depois, eu paguei tudo direitinho. Perguntei a ele se sabia quanto era a dívida. Respondeu que não se preocupara com aquilo, pois confiava na sua capacidade de fazer diagnósticos e sabia então que meu caráter se encarregaria de pagar a quantia certa. Uma figura, realmente! Uma pessoa preciosa. E eu precisava realmente da ajuda dele. Foi essencial.

A interpretação dos sonhos é uma parte importante da teoria freudiana. Como o seu trabalho, na sua singularidade terapêutica se ajustou dentro da teoria freudiana?

A teoria freudiana está incluída, sem dúvida. Cuidei bastante de minha formação nesse ponto. Me submeti a uma análise freudiana por 12 anos. Valeu. E depois fui incluindo contribuições de outros mestres contemporâneos de Freud ou que vieram depois dele. Escolhi Reich, um discípulo de Freud, como a linha vermelha – uma estrutura essencial, digamos assim – de meu trabalho. Mas de uma forma aberta, sem igrejismos, pois hoje isso não tem mais sentido.

Toda contribuição que amplie e integre os modelos existentes de forma harmoniosa é muito bem-vinda. Se Freud ou Reich estivessem vivos, seriam, penso eu, os primeiros a estar sempre superando a si próprios, já que foram pioneiros e tinham esta abertura para o novo.

Interpretar os sonhos de um modo tradicional, do jeito psicanalítico, é uma das possibilidades no trabalho com sonhos. Existem outras formas, outros jeitos de abordar os sonhos que não são exatamente interpretá-los. Falo sobre isso no livro. Amplio esse trabalho com os sonhos pois hoje penso que as pessoas, mesmo sem o contexto terapêutico, devem se relacionar com seus sonhos, desenvolver sua potência de sonhadores e aproveitar melhor esta dimensão humana em busca de mais sabedoria. Os sonhos são como fontes de sabedoria que a gente precisa acessar cada vez mais.

Esta questão está dentro do movimento humano de cada vez mais se aprofundar dentro de si mesmo, fazer contato com o mestre interior e ouvi-lo.

 
Assim não ficamos presos a regras externas, uma moral superficial, receitas de bom comportamento muitas vezes preguiçosas e a serviço de ser “politicamente correto”, fazer bonito, agradar o ibope, manter a imagem, coisas assim, que alimentam a vaidade e o egoísmo em vez de serem verdadeiramente éticas. E solapam a nossa fonte de energia. Ficamos vazios e falsos para com nós mesmos, um gosto de palha na boca, uma fome de plenitude, um vazio de ser, que posse nenhuma resolve.

Como você descobriu a importância dos sonhos para promover a cura, no seu trabalho?

Bem antes de ser psicóloga, já havia descoberto que os sonhos são instrumentos importantes para o equilíbrio e a harmonização interior. Conto no livro um sonho que tive bem pequena, uns 6 anos de idade, e que me curou do medo da morte e do morrer em boa proporção. Resolveu meu problema na ocasião e me deu alimento por muito tempo, algo que nunca perdi. E na minha prática clínica isso fica evidente.

Meus clientes geralmente se tornam bons sonhadores. À noite, o sono tornase um tempo útil, fértil, onde os processos de conhecimento de si e a capacidade de enxergar realidades cada vez mais complexas vão se ampliando. A gente pode aprender a abrir as portas da consciência também no sono. Consciência, aliás, é um fenômeno importante que merece muita reflexão.

Tenho um cliente que quando chegou aqui não sonhava. Isto é, não se lembrava dos sonhos, já que sonhar a gente sonha sempre, toda noite. Ele não sonhava à noite, não sonhava de dia, isto é, não se permitia ter inspirações, voar alto, ter projetos pessoais que pudessem acordar sua alma, seu espírito.

Estava com a vida complicada, profissional e pessoalmente. Tempos depois, ele era um bom sonhador e estava começando a enxergar as coisas, deixar de ser cego e passar por cima de tudo para não sentir. E as coisas da vida também estavam bem melhor – o trabalho, a vida afetiva. Mesmo assim, ainda tinha muito serviço a ser feito, para meu gosto.

Um dia ele se queixou de que já não estava dormindo tão bem quanto antigamente. Agora, sonhava mas acordava no meio da noite, ficava preocupado... Antes, disse, ele dormia “que nem uma pedra”. Aproveitei a deixa e respondi logo: “Mas de fato antes você estava mais para uma pedra do que para um ser humano! E aí, dormia como uma pedra. Pra falar a verdade, se eu tivesse metade dos seus problemas, acho que nem dormia! Só uma pedra mesmo para se apagar daquele jeito enquanto o circo pegava fogo! Agora você vive como gente e dorme como gente! E ainda é gente com muitos problemas básicos para resolver. Se não estivesse preocupado, eu é que estaria – com você!” Ou seja, tudo tem seu preço!

O livro surpreende com histórias como a da mãe que batia na filha, no espaço público, e na qual você interferiu deliberadamente. Como foi isso?

Tentei dar àquela menina que encontrei na rua sendo maltratada pela mãe, um pouco de amor, de vinho bom, de olhar de qualidade, que fará a diferençae pode alavancar a resiliência. Isso me lembra outra história de minha vida.

Nós éramos imigrantes recém-chegados a São Paulo. Eu tinha 9 anos e naquele dia andava pelas ruas de Moema, descalça, usando um vestido de chita próprio para o clima do sertão, mas terrível para aqueles dias frios do inverno paulistano. A garoa caía gelada, o dia escuro me matava de saudade do sol do sertão, a alma encolhida num estômago encolhido de fome. Comecei a chorar baixinho, calada, para desabafar. Passei sem prestar atenção por uma casa e por uma mulher que estava olhando pela janela. De repente, ela me chamou. Voltei:

“Você não tem um casaco?”, perguntou.

Abanei a cabeça dizendo que não. E já ia embora quando ela me chamou de novo.

“Espera aí que vou te dar um casaco.” Entrou e trouxe da casa uma blusa de lã e um lanche. Me ajudou com carinho a vestir a blusa. Riu do resultado, pois cabiam nele umas três Marias do meu tamanho. Dobramos as mangas e ela ainda me presenteou com uma idéia, dizendo que o casaco virava um sobretudo comprido, o que era muito melhor. Sentei na calçada e comi o lanche – delicioso. Ela conversou ficou por perto, uma presença que transmitia compaixão de boa qualidade, respeito. Amor.

Esse gesto daquela mulher, pela qualidade dele, me deixou experta para perceber imitações baratas e falsas. É claro que o gesto em si, o dar um casaco para uma criança pobre, poderia ter sido muito menos eficiente, mais pobre.

Foi a forma, o amor que veio junto, o respeito, que valeu. Ela não me fez me sentir uma mendiga, um ser inferior. Pelo contrário. Me trouxe para cima, para junto de seu coração. Gestos assim são sementes de resiliência.

Você acha que esse tipo de procedimento deveria ser imitado pelas pessoas? Como vê o descaso das pessoas com relação a casos como esse?

Procurei analisar tudo isso no livro porque acho importante. É complexo.

Não sei se deve ser imitado. Imitar é um recurso válido em alguns casos, mas é limitado principalmente para adultos. Acho que um gesto construtivo, como penso que este foi, deixa no outro uma marca que aciona nele forças, vibrações semelhantes, acorda nele o movimento, aquela qualidade. Pode ser uma semente que, se encontra o chão dentro da pessoa, cresce e aparece, se revela, vai adiante. Nesse sentido, não se trata de imitação, mas sim de um gesto da própria pessoa, genuíno. Um gesto deste precisa ser bancado, a pessoa precisa de um certo lastro emocional para lidar com as conseqüências.

Mas, sem dúvida nenhuma, penso que a direção correta da humanidade é sair do muro, não achar que a briga do outro não lhe diz respeito. Num nível mais profundo, a gente é também o outro, toda criança é um ser de minha espécie e sou responsável por ela. E toda vida é parte de minha vida e matá-la é me matar. É ilusão achar que “posso salvar minha pele e a dos meus filhinhos” e os outros, enfim, que pena, mas não tenho nada a ver com isso. Se o barco afundar, vamos todos para o fundo – tanto o melhor e mais seguro camarote quanto a terceira classe.

No livro você faz referência a pessoas que foram essenciais na sua vida. Elas serviram de paradigma para você?

Pessoas como aquela mulher da janela numa manhã de inverno paulistano, a mulata maravilhosa que foi minha patroa aos 12 anos, cuja história conto no livro, e Paulo Gaudêncio são tesouros humanos que devemos imitar e, mais do que isso, nos fazer buscar esse caminho, seguir essa estrada.

Muitos consideraram o filme As Invasões Bárbaras um marco da vida contemporânea, definidor de águas para o século 21. Por que resolveu fazer uma análise do filme em seu livro? Em que o filme se relaciona com os seus propósitos terapêuticos?

Porque ele me tocou muito. Adoro cinema. Gostaria de ter mais tempo para escrever sobre muitos filmes. Dogville, por exemplo. A arte em geral tem um papel muito importante para a saúde, para curar a dor humana. O artista capta, intui, entra em sintonia com os problemas, as dificuldades humanas e do planeta – e com as saídas – freqüentemente muito antes que os demais. Suas antenas são sensíveis e lhes foi dada a capacidade de expressar tudo isso através da linguagem da arte. A poesia, a prosa de boa qualidade... São maravilhosos. O filme As Invasões Bárbaras realmente coloca muito bem a encruzilhada e a encrenca em que a humanidade se meteu. E aponta as saídas:
lutamos contra um misticismo irracional, ignorante e cruel por muitos séculos.

A fé, as religiões, em grande escala, se deixaram contaminar pelos venenos humanos. Ainda os temos entre nós, renascidos. Dos anos 60 aos 80, a ciência estava no seu apogeu e venerava-se a religião da razão e da lógica. Do materialismo fanático. Da proibição da espiritualidade.

De que maneira o filme tem a ver com a sua própria vida?

Eu participei de tudo isso, já que sou como os personagens do filme, filha daquela época. Não acho que foi tudo inútil ou errado. Esta análise do certo e do errado, tão linear, tão simplista, não é funcional. As Invasões Bárbaras é bom também por isso. Sai da linearidade fanática do tudo ou nada, certo ou errado, e sai em busca de novos caminhos, viaja na complexidade, abre-se para o desconhecido. Vai além. A geração 60, 70 e 80 quebrou valores arraigados e ultrapassados; tiramos o mofo de tudo, criticamos o que encontrávamos pela frente, desmontamos tudo. E colocamos no lugar o culto ao racionalismo, à lógica, a razão e ao materialismo. E nos fanatizamos nesta seita. Junto veio o culto à liberdade sexual. A repressão sexual fazia vítimas a cada segundo, enterrando a potência humana, causando sofrimento físico, mental e espiritual em níveis inimagináveis. A chamada moral burguesa precisava ser desnudada, sua falsidade, crueldade e mentira reveladas. Tudo bem. E daí? É o que pergunta o filme. Tudo isso é preciso. Mas é preciso continuar, ir adiante. Não adianta querer viver da glória do passado. Aquilo que foi nosso maior sucesso no passado é nosso maior perigo no presente.

Tendemos a nos agarrar às glórias passadas e achar que temos alguma coisa na mão. Nada da vida podemos guardar nas mãos, agarrar, paralisar ali. Tudo passa. Viver é aprender a desapegar-se, a deixar ir nossas verdades mais queridas quando elas se tornam ultrapassadas. E elas sempre se tornam. As verdades que temos nesta vida são pedaços da verdade, são processos, um fluxo constante; chegam, fazem o serviço e se vão para o passado, deixando atrás de si apenas uma energia do seu valor essencial. E isso não se pode agarrar, possuir, pegar nas mãos, tornar propriedade privada. Isso se integra no coração da gente, faz parte da gente e não pode ser usado para nenhum outro fim (poder); é matéria-prima para ir adiante, seguir o rumo da vida, abrir-se para o novo, pegar a estrada de novo. Nascer, morrer, renascer, o ciclo da vida.

Mas no filme se assiste a uma geração decadente.

No filme, a gente assiste à decadência do tal materialismo que veio salvar a Terra, das verdades inquestionáveis que lutamos tanto para sustentar. A razão, encontra suas limitações e com isso sai em busca do seu complementar que a fará mais potente – a intuição, a afetividade. A síntese! Muito marxista! A síntese criativa entre a razão e a intuição, o material e o espiritual. Num nível tais realidades se excluem para se evidenciarem. Num outro, mais profundo, elas se encontram, na mesma fonte. E a consciência humana ganha horizonte e profundidade. Se amplia.

E isso tudo tem tudo a ver com o seu livro atual.

O livro sinaliza para a busca e a instrumentação eficiente para desenvolver a intuição, o amadurecer emocional, ficarmos mais inteligentes afetivamente.
Sermos mais inteiros, Aceitar nossos lados menos elogiáveis, mais mesquinhos, como partes de nosso ser, nossos “eus” todos. Só assim podemos cuidar deles, curá-los. Temos que parar de fazer de conta que só existe um eu, aquele que se apresenta em público. Aceitar nossas incoerências, incluí-las.
Tem um eu legal, coerente, simpático. E tem outro ranzinza, chato, maldoso.

Tem um de bem com a vida, como todo mundo gosta de se apresentar. E tem outro de mal com a vida, puto da vida... Vamos parar de mentir para nós mesmos.
Você diz na sua análise do filme que uma das arapucas do ser humano é se perder “nos descaminhos da “superficialização” e na “euforia”. É isso que leva pessoas à doença?

A superficialidade, o não olhar de frente e profundamente as coisas, e ficar paralisado numa postura de “tudo bem”, desviando o olhar da alma para aquilo que está em desequilíbrio, em desarmonia, é muito comum na nossa cultura e leva a adoecer, sim. É um fator insalubre. Se a gente não pode, não agüenta, encarar a nossa tristeza, por exemplo, ela fica lá trancada em algum lugar, e pressiona todo nosso sistema, nosso ser, nosso organismo. Essa tristeza, decepção, frustração, desencanto, vai azedando dentro da gente, sem poder circular, buscar saídas realistas; e muitas vezes acaba se transformando em sintomas, sejam físicos – um doença qualquer mais ou menos grave –, ou depressivos, por exemplo.

Nossa cultura anda nos exigindo que estejamos sempre up, ótimos, pra cima, vencedores, maravilhosos. Quem está triste corre o risco de levar alguma interpretação do tipo “deixa disso, olhe para cima” – coisas que no fundo são uma forma de a pessoa lhe dizer que é melhor que você. Em nome de sermos “ótimos”, “felizes”, “de bem com a vida”, vamos muitas vezes engolindo sapos, agüentando o que não dá para agüentar. Escondemos de nós mesmos e de todos nosso medo, nossa tristeza. E pagamos um preço por isso.

Não temos autorização da cultura para pulsar – seguir o ritmo da natureza, que é expansão-recolhimento. Esta polarização num extremo provoca o outro extremo como uma balança que, se vai alto numa ponta, retornará no mesmo nível na outra ponta. Então, a tal euforia do “estou sempre bem, ótimo, maravilhoso, vencedor” uma hora vai para o outro pólo – a depressão ou a somatização. A gravidade da somatização, da doença, física ou emocional, depende de quanto a pessoa é extremada na posição  ufórica. Há pessoas, sistemas vivos, que oferecem mais possibilidades de descarga da excitação, ou seja, podem se recolher, viver as emoções lá dentro, chorar, contabilizar perdas, danos e fracassos. É questão de graus. Tem gente que aceita se encolher um tanto, pega uma gripe, deprime-se uns tempos, senta e chora, deita e chora, elabora, e retoma a expansão com mais riqueza. Outros não agüentam isso. Só caem quando a rasteira é realmente grande. A pessoa perde a flexibilidade, o fluir. Fica prisioneira num estado de ser, eufórico, no caso.

Não pode recolher-se, encolher dentro de si.

O sistema político, econômico e cultural em que vivemos não ajuda, não é mesmo?

Nossa cultura tem medo do silêncio, do vazio e da dor. Há uma angústia de preencher tudo, todo tempo, todo espaço, mesmo que seja falando besteiras, fofocas, inutilidades. Ou fazendo discursos pseudo-intelectuais no sentido de ter a função apenas de exibir conhecimentos e não de resolver de fato as coisas, as questões, os problemas. Ou então, vamos para o barulho, o ruído.

Ninguém é convidado a se recolher, a ficar no silêncio de si mesmo.

Desaprendemos assim como respirar normalmente. Temos um padrão de ansiedade: inspirar demais, parar ali (cheio de si), expirar o mínimo. E eliminar a parada natural entre uma respiração e outra. Não podemos parar no vazio, no não ter, no confiar no fluxo da vida. Temos medo de expirar, de morrer, de ficar no nada. Não corremos o risco de nos entregar ao espaço vazio para ver surgir dele um novo universo, uma nova vida. Nos agarramos a tudo que possa nos dar uma sensação de segurança, de conforto. Não soltamos, ou soltamos demais quando não agüentamos mais agüentar, e aí descompensamos em sintomas emocionais, mentais, físicos.

Você acha que a geração atual é mais saudável do que a de Rémy, o personagem principal do filme?

Acho que há duas vertentes importantes. Um grupo que vai afundando cada dia mais na loucura e na destrutividade, na escuridão. E por outro lado, novos e brilhantes focos de luz vão se acendendo. Acontece que a luz tem mais força que a escuridão, que é a ausência da luz. Uma única lâmpada ilumina um campo muito vasto. É por isso que estou sempre, na vida e no livro, convocando as pessoas a acenderem sua luz e nos unirmos numa rede de revitalização do humano a serviço do humano e de todo o planeta, da vida.

Então, apesar de tudo, penso que estamos, sim, evoluindo numa direção de mais vitalidade, mais construtividade. Hoje já existem mais possibilidades, mais portas abertas, mais caminhos para quem puder e quiser seguir. É hora de escolher. A cada momento esta escolha se faz em nossa vida e é preciso que cada vez mais a gente fique consciente disso.

Todos os casos relatados em seu livro – incluindo o emblemático caso da moça do poodle – tiveram desfecho positivo?

Sim, muito positivos. A não ser, como contei, o caso do Robert. Este eu não sei. Não tive notícias. Mas quem sabe também ele...

Por que muitas pessoas não conseguem se lembrar dos sonhos?

Muitas vezes é porque algo está fechado dentro delas. Falo disso no livro.

Geralmente não lembrar os sonhos indica um bloqueio, uma limitação que o próprio psiquismo impõe para proteger a pessoa. Ela continua sonhando, elaborando coisas, num nível mais profundo de si mesma. Mas as informações não são passadas para o consciente. Não dá para dizer, a priori, se isto é necessariamente ruim. É o que é. E tem lá seus motivos. Tem gente que não sonha, não lembra do sonho e nem quer lembrar. Então, não acho que se deva mexer nisso, nesse equilíbrio. E tem gente que quer lembrar, quer abrir o acesso, o portal que integra os vários níveis de seu ser. Então, se não se lembra dos sonhos, deve olhar isso com cuidado, com carinho. E deve se perguntar,no silêncio de si mesmo, qual deve ser o motivo.

Mas não faça tal pergunta com superficialidade, do tipo falar e sair andando, sem prestar atenção, sem foco. A questão de desenvolver a capacidade de focar é importante. Sair da dispersão onde a visão é borrada, sem nitidez, onde todos os gatos são pardos e tudo é nada e nada é tudo. A psicoterapia, assim como a meditação e outros recursos usados para promover o desenvolvimento da pessoa, sempre se assenta sobre o amadurecimento da função do poder focar a atenção, olhar com clareza, nitidez, discriminar. É uma longa historia, que fica para outra vez. Mas é preciso tocá-la para iniciar o processo de sonhar melhor.

Muito interessantes as suas conclusões sobre a culpa e a ingenuidade no livro. Como chegou a elas?

Acho que a questão da culpa em nossa cultura judaico-cristã é muito séria.

É um obstáculo para o amadurecimento emocional das pessoas. Por isso achei importante entrar fundo nisso no livro, ajudar as pessoas a discriminar as coisas e a ter instrumentos para se posicionar melhor quando o jogo da culpa se apresentar a elas nas situações da vida, nos relacionamentos. A ingenuidade é frequentemente apresentada por nossa cultura como uma virtude e confundida com inocência e pureza. Acho importante separar alhos de bugalhos, o joio do trigo. Então, no livro, eu provoco e apresento a ingenuidade em sua pior faceta: um sintoma, uma dificuldade emocional como outra qualquer, um sintoma neurótico como outro qualquer. Isto é, um problema que a pessoa deve resolver para parar de criar desconfortos para si mesma e para os outros.

A culpa e a ingenuidade nos levam ao tema da vítima e do algoz. Aqui também precisamos ficar espertos, enxergar as coisas com clareza. Há vítimas reais, autênticas, digamos assim – crianças maltratadas, por exemplo. E há pessoas que jogam o jogo de vítima para levar vantagem, manipular, chantagear.

Consciente ou inconscientemente, e isso não altera o grau de manipulação envolvida na ação, no posicionamento da vítima em questão.

Você revela no livro uma forte espiritualidade. É importante manter uma conexão mais elevada, através de práticas religiosas ou não, para a saúde mental nos dias de hoje?

Penso que é importante manter uma conexão com nossas dimensões mais elevadas. E que isso é um fator de saúde, de aumentar nossa vitalidade e, portanto, possibilidades, potência. Não penso que seja necessariamente através de uma religião. Mas também pode ser. Há pessoas que se beneficiam muito se buscam a dimensão espiritual através de uma religião. Outras podem até se atrapalhar com isso e fazem um caminho mais no silêncio do santuário interior, buscando conectar-se com o divino dentro de si, aprender a ouvir a voz do mestre no mais profundo da dimensão humana, acessando sua intuição, o nível que está muito além do racional, lógico e mesmo emocional. O nível espiritual, do espírito, que é nossa verdadeira vocação como seres humanos.

Portanto, o ser humano implica, na sua plenitude, ser espiritual. Não deixamos de ser humanos ao sermos divinos. Pelo contrário: quanto mais humanos, verdadeiramente, mais divinos.

Você diferencia espiritualidade de religião?

Acho importante também aqui ficarmos espertos, atentos, discriminar. A religiosidade pode estar a serviço da doença, da neurose, da loucura, ou sei lá como chamar nossas carências, nossas fragilidades últimas. E isso não é necessariamente ruim. Passa a ser um mal quando ela vira uma espécie de muleta fixa, uma escora à qual nos agarramos para não ter que saber de nós, de nossas maldades, de nossos descaminhos, de nossos erros. Aí,enlouquecemos, saímos de nós. Ficamos fanáticos, achamos que só nosso grupo religioso é que presta, que os outros são ruins, falsos. Começamos a alucinar que ‘temos a verdade, que ela é nossa” e essas coisas que já bem conhecemos. Já vimos esta história. Vira um vício.

O que é um vício? É algo que nos ajuda a preencher artificialmente nosso vazio interior, fugir de nós mesmos, algo a que nos agarramos para fingir que somos fortes, grandes e poderosos e assim não precisarmos encarar nosso desamparo. Os vícios estão em função do medo. E não da vida. Não são temas de coragem, e sim de medo.

E não é só religião que pode virar vício e fanatismo. Nós, humanos de 2005,somos ainda muito frágeis e medrosos. Tendemos então a nos agarrar a tábuas de salvação, a coisas que possamos sonhar que nos darão a tal segurança que tanto os medrosos todos procuram. Então, a gente pode, eventualmente, transformar qualquer coisa em vício, fanatismo, muleta: ciência, time de futebol, pátria, religião, grupo social, casamento, caso amoroso, sexo, drogas, poder...

Você considera que a religião pode ser útil para a construção da autoestima de uma pessoa?

Em princípio, sim. Mas é bom lembrar que nada é bom ou ruim em si mesmo. Depende do que a gente faz com a coisa, de que função ela passa a ter para a gente. A religião pode ser, como tem sido, o famoso “ópio do povo”, um vício a serviço da escravidão emocional e mental, e pode ser um instrumento de alavancagem evolutiva, de crescimento, de nos tornarmos pessoas melhores, mais úteis a nós mesmos e aos outros, à comunidade.

E tudo isso tem muitos nuances, muitos pontos de vista. Precisamos agüentar ser complexos porque a vida o é! Mesmo sendo uma muleta, por exemplo, um recurso – a religião, no caso – pode ter lá sua serventia. Eu não tiraria a muleta de alguém que tem a perna quebrada se não tiver nada melhor a oferecer. Mas também não vou ficar enaltecendo e fanatizando a tal muleta como a salvação do mundo. Tentaria ajudar quem pudesse e quisesse a encontrar um recurso mais funcional. Um gesso, digamos, seria melhor, já que dá mais perspectiva de curar a tal perna e retomar o processo evolutivo, retomar a funcionalidade da perna. Enfim, julgar é um assunto complicado e precisamos ter cuidado para não aumentar ainda mais a paralisação do outro e não acrescentar nada.

Tudo isso até me lembra outro filme, Náufrago, em que o personagem fica ilhado por um longo tempo e ali, no desespero, faz de uma bola o seu Deus. E foi muito bom, naquele caso. Muito funcional, ajudou-o a agüentar a situação.

Então, em muitos casos, individualmente, o fanatismo pode ajudar a pessoa a encontrar um equilíbrio; embora precário, isso a ajuda a não desmoronar e pode, portanto, ter uma serventia.

O problema é que quando estas pessoas formam redes – e a vida forma redes –, o grupo religioso desta qualidade, desta vibração “muleta”, vira um campo fechado que começa a ser predador do ambiente, do entorno. Torna-se um sistema que vai se empobrecendo por ter se fechado em si mesmo e, para sobreviver, precisa se nutrir de alimentos que cata fora de si, do entorno. Esse catar alimento pode acontecer na forma de agressões, de atitudes paranóicas, que não deixam de ser trocas, que dão energia ao grupo. Fica difícil. Mas esta também é uma longa história...

No livro você mostra como a busca da espiritualidade autêntica é muito importante...

A espiritualidade autêntica, a busca de dimensões mais profundas do ser, leva a pessoa a descobrir recursos, ampliar seu horizonte, sua visão, sua consciência. E isso a leva, necessariamente, a ver que não está sozinha neste universo, que o mundo vai além do seu próprio umbigo e, eventualmente, que o tal umbigo nem é tão fantástico como ela pensou a vida toda. É como olhar do primeiro andar de um prédio, vislumbrar de lá uma paisagem, e depois subir, de andar em andar, e ver o mundo crescendo, o horizonte abrangendo cada vez uma amplidão maior. A pessoa começa a enxergar as redes, as conexões entre tudo.

Um bebê descobre que ele existe; depois, se tudo for bem, descobre que a mãe existe e que pode fazer com ela uma conexão. Nasce a possibilidade da relação. Crescendo, a criança vai ampliando seu campo de conexões: o pai, a rua, a escola, a comunidade, o país, o planeta, o cosmo. Vai ampliando, ganhando espaços de ser, se enriquecendo como pessoa, como ser humano, ser cósmico. Mas na verdade, a maior parte das pessoas, neste início do século 21, ainda está capengando neste amadurecimento do ser. Estamos ainda muito apertados no pequeno espaço de nossos umbigos. Às vezes incluímos nossa família e amigos mais próximos ao estreito círculo de nosso “eu”. Já é melhor, sem dúvida. Quarto, cozinha, banheiro em vez do pobre cubículo do “eu e eu, meu umbigo”. Mas nosso destino, como seres humanos, é o cosmo, é o infinito. Somos irmãos das estrelas! Quando vamos sair do medo de ganhar dimensões, horizontes?

Hoje já se fala muito em compartilhar, mas a individualidade ainda é muito grande. O que você acha?

As pessoas ainda estão no âmbito da “minha família”. E assim excluem os outros, criam um muro, delimitam um território rígido demais. As trocas ficam pobres. Não percebem que olhando de um andar mais alto, num nível superior, estamos todos num mesmo campo, estamos todos enredados, ligados, no mesmo destino. E deste ângulo, o eu pode incluir o nós sem se perder, sem perder nada. Nos agarramos à noção de eu e de independência numa visão míope, grudados no próprio nariz, sem enxergar um palmo à frente dos olhos.

A verdadeira independência é a interdependência, é ser o suficiente para sercom, ser junto; é poder entrar em intimidade sem se perder, sem perder os próprios limites, sabendo de si, podendo retornar a si a qualquer momento, num ir e vir, numa integração, numa inteireza. É poder amar, entregar-se ao outro, sem se perder de si mesmo.

O que é freqüente é a pessoa se isolar para não se perder no outro. E ficar na miséria afetiva. Ou então chegar perto e se perder, se fundir com o outro, perder a si mesmo, não saber mais de si. Isso é imaturidade.

E a espiritualidade verdadeira necessita de um amadurecimento emocional, psíquico. Este é o único chão saudável para a dimensão espiritual. Esta é a diferença entre um santo, que tem visões, e um louco, que também tem visões.

O santo serve à humanidade, presta um enorme serviço, cura a dor humana. O louco sofre. Apenas isso. O santo navega no mesmo mar onde o louco se afoga. Esta é a diferença. Por isso eu tento, neste livro, ajudar as pessoas a encontrar o caminho do amadurecimento emocional, afetivo.

No livro, fica bem evidente o potencial de cura em cada um dos casos abordados, desde que o ser humano se disponha a pedir ajuda à pessoa certa.

Sim, precisamos de ajuda. Divina, sem dúvida. Mas também de seres humanos. Quando são os seres humanos que nos feriram, é preciso que seres humanos venham tratar as feridas. Mesmo que não sejam as mesmas mãos. No fundo, são as mesmas mãos. São mãos humanas. E hoje trago dentro de mim uma imensa gratidão por todos os gestos de humanidade que recebi naqueles dias de miséria. Aliás, também tenho imensa gratidão pelos gestos de humanidade, de boa qualidade, que recebo hoje. São essenciais.


"Maria de Melo é psicóloga (CRP 1114) formada pela USP e psicoterapeuta reichiana, com mais de trinta anos de experiência em clínica individual e grupo."

Para adquirir um exemplar do livro "A Coragem de Crescer":

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Atividades
AGO/2015 - Grupo de Análise Reichiana: "realmente um curso avançado dentro do quadro da psicoterapia no mundo moderno."
A coragem de crescer
Uma nova dimensão no caminho de evolução pessoal. Desenvolve a intuição, o entender seus sonhos.
Maria de Melo
O sertão é o mundo e o mundo é o sertão se buscarmos o nosso cerne; somos a humanidade, uma só alma.
Consultório: Alto de Pinheiros - São Paulo - Tel: (11) 3021-0003 - Cel: (11) 99229-2293
Maria de Melo