Maria de Melo

Artigo: Comunicação: Uma necessidade Vital



Comunicação
 
Uma necessidade Vital
 
Maria de Melo

 
Nesta era que tanto se valoriza as comunicações, dois fatos chamam a atenção. Um deles é a pouca ou nenhuma consciência que cada um de nós tem de sua dificuldade para se comunicar. O outro é a freqüência com que a descomunicação acontece justo com as pessoas mais íntimas, com as quais, aparentemente, teríamos todas as condições para uma boa troca.
 
É raro quem não se considera perito em comunicação, desinibido, rápido no raciocínio, capaz de ganhar sempre a discussão. Se o diálogo emperra, não é por culpa dele: o outro é que não quer entender. Tanto que, quando alguém me procura por dificuldades de comunicação, em geral está em busca de alguma espécie de técnica de vendas, um meio de empurrar melhor um peixe qualquer a um freguês. E afinal, não é isso que a mídia e as escolas de Comunicações ensinam? Para elas, comunicar é atingir alguém em cheio com uma mensagem visando, em primeiro lugar, algum proveito próprio. Nada a ver, como se percebe, com a comunicação profunda que toca e transforma igualmente os dois interlocutores.
 
A palavra comunicação, do latim communicatio, é composto de cum (junto), munis (presente) e actio (ação). Comunicar, então, é trocar presentes e os comunicadores, juntos, fazerem uma festa. Claro que a vida não é só festa e também é preciso comunicar coisas tristes. Mas, na origem, comunicar era isso: "troca de coisas boas". E quando verdadeiramente trocamos, por mais que sejam coisas duras, estamos dando presentes. A troca – o conforto mútuo, o toque energético, o fato de estar interagindo, dando e recebendo num nível de paridade – é que é o presente. Se houver uma dificuldade crônica em realizar essa troca viva e transformadora, as raízes do problema podem estar fincadas no passado. Não apenas no passado pessoal, que vai sendo desdobrado no consultório de um terapeuta, mas em outro, muito remoto, ligado à evolução da espécie.
 
 
Os Três Cérebros
 

A biologia explica. Em nossa evolução pessoal, desde a fase embrionária até chegarmos à maturidade fisiológica, psíquica e emocional, atravessamos estágios próprios dos animais que nos antecederam na escala evolutiva. Nosso sistema nervoso, portanto, compreende os sistemas nervosos desses animais e mais aquele que é típico do ser humano: temos um cérebro reptiliano semelhante ao dos animais de sangue frio; um cérebro límbico, que nos inclui na família das aves e mamíferos, de sangue quente; e o neocórtex – esse , exclusividade nossa. O que tudo isso tem a ver com comunicação? É que qualquer aspecto da saúde física, psíquica e emocional do adulto depende do bom funcionamento, equilíbrio e integração dos três cérebros. Para nos entendermos como gente é bom saber um pouco do que acontece em cada estágio da evolução.
 
No desenvolvimento de cada um de nós, há fases em que um dos três cérebros predomina, atendendo às necessidades do momento. No útero e logo após o nascimento, prevalece o cérebro reptiliano, graças ao qual os animais de sangue frio sobrevivem e defendem seu território. Já na fase uterina, não é raro vivermos nosso primeiro medo: de que se apague a chama da vida que mal começa, o medo de morrer. Um medo que às vezes permanece inconsciente, inexplicado, como se o feto que um dia fomos tivesse ficado encolhido em algum canto esperando ainda ser atendido. Ele ali e nós fazendo de tudo para ignorá-lo. Se o reconhecêssemos, criaríamos um problema com o nosso aspecto adulto, que só quer saber do nosso lado forte e poderoso. Infelizmente, evitar o contato com esse lado frágil e ameaçado equivale a perder o contato com nosso próprio cerne. E quem perde o contato íntimo consigo mesmo, fica sem canal para contatar intimamente com os outros também.
 
O cérebro límbico dá respostas tudo ou nada, sem a flexibilidade que o desenvolvimento posterior permitirá. Mal comparando, quem fica parado neste estágio guarda dentro de si um jacaré, pronto para atacar desconhecidos. Situações novas são sentidas como ameaças. A tendência é buscar situações conhecidas, a compulsão é repetir.
 
Como não poderia deixar de ser, as trocas são em clima de ansiedade, como se a cada passo, toda a existência estivesse ameaçada. E o pior é que, quando menos se espera, o jacaré se mete na conversa. Esse é o problema de não aceitarmos nossos aspectos escondidos e regredidos. Se não nos responsabilizarmos por eles, podem ficar descontrolados como crianças que invadem a sala de estar onde estamos conversando civilizadamente com as visitas. Podemos pedir desculpas, fingindo que são as crianças do vizinho. Mas o que resolve mesmo é cuidarmos de nossos pobres bebês que há muito esperam por isso.
 
Nosso parentesco com os répteis, como se vê, não é nem um pouco desprezível. O cérebro reptiliano regula o ritmo biológico, a função hormonal, funciona em defesa da vida, do território e da espécie, regendo o acasalamento. Corresponde a um comportamento rígido e estereotipado, eficiente na organização da rotina. Seu equilíbrio é a base da saúde mental e física. Mas se de alguma forma pararmos nesta fase, lá vem problemas de comunicação.
 
Quer um exemplo? João volta para casa depois de um dia de trabalho eficiente e objetivo. Dá um beijo em Ester, sua esposa, e de tão cansado cai no sofá, mudo e inerte. Mas Ester não vem socorrê-lo e nem dá bola. Como é que ela não percebe? Ela não vem paparicá-lo e João fica ali, amuado e incompreendido, quieto no seu canto, incapaz de expressar sua expectativa com palavras ou gestos. Traduzindo: João, que não teve uma boa estadia no útero, agora gostaria de receber tudo o que precisa sem ter que mover um dedo.
 
 
Relações Uterinas
 

Situações estressantes para a mãe na gravidez (sofrimentos, carências, conflitos emocionais) podem atingir a criança no útero, perturbando seu paraíso, a paz de seu momento de aprontar-se para ver a luz. O psicótico, por ter passado por um estresse grande demais nessa fase, está emocionalmente parado ali, como se não tivesse acabado de nascer. Mas pessoas normais, ou simplesmente neuróticas como a maioria de nós, também podem ter algo irresolvido nessa fase. Mais tarde, essa pessoa pode buscar no casamento uma relação semelhante à uterina. Como João, que sabe usar muito bem sua energia na vida social e profissional, mas espera encontrar em casa o bom útero de que tanto precisou, e, pelo visto, ainda precisa.
 
 
Numa relação é razoável esperar uma certa dose de colo, sobretudo se for mútuo
 

Quem sabe se nos primeiros tempos, Ester, de maneira clara ou velada, tenha dado a entender a João que ela seria tal útero. Para conquistá-lo, talvez, ou achando que em algum momento a situação se inverteria e chegaria a vez de ela ter também um pouco de útero, ou de colo. Se tivessem encarado a realidade, ambos perceberiam que nenhum dos dois era bom de útero ou de colo. Desse equívoco virá muita descomunicação, muita falta de contato. Ambos se sentirão enganados, como quem compra gato por lebre. Acharam que estavam casando com a mãe e o que têm pela frente? Um filho e uma filha. No fim, cada um terá que tomar conta de seus aspectos regredidos. Numa relação é razoável esperar certa dose de colo, sobretudo se for mútuo. Mas uma atitude maternal é muito diferente de uma mãe à disposição. Quem casa quer um companheiro que, como a palavra diz, é aquele com quem se reparte o pão, e não um eterno dependente.
 
Nascemos e perdemos o útero envolvente. Esta é a nossa primeira separação e é também o ponto em que algo muda muito: a relação com a mãe.
 
Com a mãe-útero vivo uma relação de fusão, não me distingo, não conheço a solidão de ser eu, único e diferente. Somos um. Sou tudo porque não identifico meu eu, nem identifico o outro (o não-eu). Se a estadia no útero for boa, em nove meses estarei pronto para fazer a passagem pelo túnel – a vagina materna – que leva ao mundo externo, e pronto também para agüentar a perda de meu primeiro mundo.
 
Para que a passagem seja bem sucedida, é fundamental que a mãe se abra para o filho, que o espere como um ser diferente de si mesma. Ela vai ajudá-lo a reconhecer sua identidade individual nessa fase, não mais fusional, mas simbiótica: agora, são dois seres que podem fazer contato e trocar sensações e emoções. Aqui entra em funcionamento o cérebro límbico que, na evolução das espécies, se desenvolve no momento em que o animal passa a cuidar da prole. Uma nova força se coloca ao lado daquela que o leva a defender a própria pele: o vínculo afetivo que o liga ao outro como fios sutis e resistentes. Seu espaço vital se amplia. incluindo o novo ser. Surge a necessidade de contato e de proximidade, os mamíferos chamam sua prole através de sons e sinais.
 
Para o bebê, ao primeiro contato pele a pele, começa o aprendizado dos sentidos. Ele já não é tão passivo. Ele mesmo consegue o seu alimento, sugando. Olhando alternadamente para o seio e para a mãe, para seu próprio nariz e para o rosto da mãe, desta forma vai distinguindo a si e a mãe. É assim, na relação, que se inicia a formação do eu. É aqui que pode surgir o segundo medo: o de ser abandonado. Porque neste momento, o outro, o contato, é a forma de ligar-se à vida, de sentir-se seguro.
 
Ao reconhecer sua identidade, ao perceber-se separada, a criança abre um mundo para si. Mas também descobre a solidão de ser única, diferente. É o início da independência, com suas possibilidades e preços. Bem nutrida física e emocionalmente, bem recebida neste mundo, a criança terá recursos para ficar só sem se abandonar. Poderá desenvolver a capacidade de se fazer companhia enquanto espera o seio da mãe.
 
 
Medo do Abandono
 

A incapacidade de esperar é justamente uma característica das pessoas que conservam parte de si parada nesta estação, um nenê sempre em busca de um peito para pendurar-se, sempre com medo de ser abandonado, desesperados, pressionados pelo tempo. Quem fica neste estágio, carregando como questão básica na vida o medo do abandono e da perda, tem um núcleo depressivo na personalidade em função de seu desengano de haver esperado um bom contato de que necessitava e que não veio no tempo certo. Quando nascemos, abrimos a boca à espera do alimento físico e emocional. Se não chega, ou chega de má qualidade, nos tornamos cronicamente insatisfeitos, tomados pela sensação de vazio, com um buraco no peito. Essa pessoa se arrisca a passar a vida toda na ilusão de a cada encontro ter achado a mãe ideal de que tanto precisou e não teve. Esperará que o companheiro preencha seu peito vazio até se convencer, depois de sucessivas desilusões, que terá de usar sua própria energia para conseguir seu alimento físico e emocional.
 
Vejamos um exemplo de dificuldades na área, lembrando que o universo do cérebro límbico é o dos animais de sangue quente, como o cão.
 
Maria chega em casa como um cãozinho que se energiza inteiro com a aproximação do dono. Ou como a criança de peito que vibra dos pés à cabeça quando a mãe chega perto, e isto mostra que já há contato. Maria faz contato, condição necessária, mas não suficiente, para uma comunicação madura. Dentro dela, um nenê de peito ainda espera que o companheiro supra suas carências. Por isso, entrará em casa, por exemplo, falando muito, ansiosa por contar tudo. Trocando em miúdos, querendo despejar no marido as frustrações e alegrias do dia. Tal qual uma criança pequena que precisa da mãe para elaborar suas experiências com as quais ainda não sabe lidar.
 
Maria acreditará estar dando, quando tudo o que quer é receber. Ela é um saco sem fundo em sua exigência de afeto. Se o marido se distrai um segundo, sente-se ameaçada de abandono e a conversa degringola. Como não tem muitos recursos para lidar com a frustração, não sabe o que fazer quando se depara com limites como esse, que a realidade toda hora impõe. Admitir a dependência e a necessidade de ser nutrida seria a única forma de Maria aceitar e providenciar ajuda eficiente. Não há outro jeito de crescer, a não ser aceitar os aspectos de nossa personalidade que nos amedrontam ou desagradam.
 
 
O Neo-Córtex
 

Por volta de um ano de idade, a região do neo-córtex cerebral amadurece e a criança passa a ser capaz de coordenar seus movimentos e dirigir-se a seus objetivos. Pode andar, buscar, pegar. Com o desmame, começa a desfazer-se a relação simbiótica com a mãe. O campo se abre para incluir um terceiro: o pai, a família, o social. Com os recursos do neo-córtex, nosso remoto antepassado se pôs de pé, olhou em volta e se localizou: onde estou? Para onde vou? Quem sou? Ganhou visão tridimensional. Com sua nova ótica, percebeu espaço e tempo. Tornou-se um ser histórico, com passado, presente, futuro, atrás, aqui, ali, adiante.
 
A criança também percebe tantas possibilidade pela frente que aceita, em troca, abrir mão do seio. A partir daí, poderá calcular o antes e o depois, criticar, decidir, optar. Criar e reconhecer símbolos e com eles comunicar-se, oralmente e por escrito. Comunicação madura implica troca em nível de símbolos, que são culturais e sociais. Implica linguagem. Se quero dizer maçã, preciso preocupar-me em usar o símbolo sonoro correspondente a essa fruta. Não posso usar as palavras como bem entender, achando que o outro tem que adivinhar o que quero dizer, como a mamãe que entendia meus sinais.
 
No desenvolvimento normal, as etapas vão se somando. A criança bem gerada, bem nascida, bem amamentada, bem cuidada, consegue a graça da gratidão, a emoção quase divina de dominar a inveja e acolher o que o outro lhe der de bom. Deseja expressar a sua alegria por isto e, assim, trocar é um desejo natural. Depois, bem integrada em seus três cérebros, e portanto em sua personalidade, conseguirá perceber sensações, discriminar sentimentos e transformá-los em expressão verbal.
 
Convém lembrar que o neo-córtex depende dos níveis anteriores para as informações que passará a elaborar. Recebidas as informações, as analisa e devolve aos cérebros reptiliano e límbico. A sensação depende do cérebro reptiliano, a percepção do límbico e a apercepção, que é a percepção da percepção, a consciência do que se percebe, depende do neo-córtex. Todos juntos possibilitam a comunicação.
 
O amor maduro envolve os três níveis cerebrais; é o neo-cortical sem excluir os níveis anteriores. Vai além do mero contato afetivo, pois implica também avaliar. Amor implica estima. Estimar é dar valor, função do neo-córtex. Outra característica do amor é não ter necessidade de excluir o convívio social, como acontece na paixão, que é simbiótica. O amor se enriquece com e no social.
 
É justo reconhecer que na vida a dois, realça as dificuldades emocionais. Na vida social, certos aspectos da personalidade não precisam ser expostos. Como diz o ditado, é depois de comer um saco de feijão junto é que se conhece o outro. Amando, colocamo-nos nus diante do outro. Isto requer a coragem de nos arriscar apesar do medo, essa emoção básica que nos faz correr em busca de segurança. Aceitar que a insegurança é humana e inevitável nos dá equilíbrio. O medo que nos faz sair da relação no primeiro ato, quando a verdade mal começa a se revelar, nos impede a satisfação de atravessar as dificuldades, aquele território entre a lua-de-mel e o terceiro ato, marcado pela saborosa e contagiante alegria da integração e da melhor comunicação.
 
 
Texto publicado na revista Viver Psicologia, dezembro/ MCMXCII.

 
"Maria de Melo Azevedo é psicóloga (CRP 06/1114) formada pela USP e psicoterapeuta reichiana, com mais de trinta anos de experiência em clínica individual e grupo."

 

Maria de Melo
O sertão é o mundo e o mundo é o sertão se buscarmos o nosso cerne; somos a humanidade, uma só alma.
A coragem de crescer
Uma nova dimensão no caminho de evolução pessoal. Desenvolve a intuição, o entender seus sonhos.
Atividades
AGO/2015 - Grupo de Análise Reichiana: "realmente um curso avançado dentro do quadro da psicoterapia no mundo moderno."
Consultório: Alto de Pinheiros - São Paulo - Tel: (11) 3021-0003 - Cel: (11) 99229-2293
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