Maria de Melo

Artigo: Mamãe está cobrando!



Mamãe está cobrando!

Maria de Melo


Sentir-se culpado. Deixar os outros com culpa e tirar vantagem disso. A nossa cultura parece tão marcada pelo problema da culpa que às vezes eu acho que ela virou uma espécie de gasolina que move as pessoas. Como um motorizando que está sempre ali, produzindo relações escusas entre pais e filhos, entre marido e mulher, entre os próprios amigos. No velho jogo da culpa, até sentimentos como o amor e a generosidade vão se transformando em outras tantas formas de controle e domínio. Vão produzindo mal-estar em vez de alegria.

Por isso, é muito importante situar e esclarecer o sutil jogo da culpa nas relações humanas. Especialmente ali onde ele começa – nos relacionamentos antigos com a mãe, com o pai, com a família. Em certas famílias forma-se tal jogo de dedicações heróicas e cobranças subentendidas que seus membros vão se acostumando a funcionar na base da culpa. As crianças que crescem nesse meio, mais tarde, já pessoas adultas, sentem-se facilmente culpadas e, na ânsia de reparar, se tornam facilmente dominadas pelos outros. Em compensação, são mestres na arte de produzir culpa nos outros e se beneficiarem disso. Um jogo complicado onde nunca ninguém está muito feliz.
 
Um exemplo pode ilustrar melhor como isso funciona. Vamos imaginar um determinado paciente diante do seu terapeuta. Ele é um rapaz de
mais ou menos 30 anos, muito defensivo, com dificuldade de expressar seus sentimentos. Até que, numa determinada sessão, começa a se abrir, a contar muito de si. É, para ele, um momento muito especial. Mas a sessão, de 50 minutos, está no fim. Ele olha para o terapeuta como quem diz: você não pode terminar esta sessão agora. Seu olhar expressa um velho jogo de culpa: eu estou precisando, você é obrigado a ficar aí, senão vai se sentir muito culpado por isso.
Para o psicólogo também é um momento delicado. Se encerra a sessão, pode sentir-se culpado. Se continua, entra no jogo do paciente: as pessoas são obrigadas a fazer certas coisas sob pena de se sentirem muito culpadas se não fizerem. Neste caso, com esta pessoa em particular, um viciado no jogo de vitima e algoz, o psicólogo achou conveniente não ultrapassar o limite do horário da sessão. Correria o risco de  deixar o paciente com uma dívida a mais na vida. Seu gesto   não seria entendido como generosidade amorosa, simplesmente, e sim como uma obrigação, que criaria dívida e daria manutenção ao jogo. Encerra a sessão dentro do combinado – aos 50 minutos. O paciente sai irritadíssimo, passa a semana mal, vomita muito. Na verdade, essas suas reações remontam a uma situação de infância. Ele era filho de uma mãe que dava a vida por ele. Que, principalmente, costumava preparar comidas deliciosas para o filho. Só que ele era obrigado a comer tudo o que ela preparava. Gostasse ou não. Tinha que engolir tudo e nem vomitar podia, pois seria sinal de mal-agradecimento. Por isso ele pôde vomitar depois daquela sessão: se o psicólogo foi mau, sentiu-se livre para fazer o que achou certo, ele também se sentiu no direito de não ser comportado, de fazer o que tinha vontade.

Com a mãe, ele tinha sempre uma tremenda culpa por não comer, por  não aceitar tudo. Como se quem nos ama e se sacrifica por nós tivesse todos os direitos: a nós só cabe não decepcionar tal criatura. Neste jogo, não somos livres diante de quem nos ama.

Ora, na verdade não é bem assim. Se o outro, livremente e por prazer, faz um esforço por mim, é problema dele. Eu sou livre para aceitar na medida em que também isso me dá prazer. E ninguém fica devendo nada para ninguém. Alias, receber também é uma dádiva. O prazer é o pagamento à vista. A gratidão é um sentimento doce, delicioso, que faz bem a quem dá e a quem recebe. Mas gratidão não é dívida. Pelo contrário, é o reconhecimento da generosidade do outro. É uma dádiva também. Só que aquele jovem paciente do meu exemplo aprendeu modelos muito diferentes com a mãe. E até hoje continua assim. Cada vez que alguém diz que precisa dele, e cobra isso sob pena de culpa, ele entra no jogo. No fundo irritadíssimo, achando injusto, mas por fora sempre generoso, engolindo as coisas sem nenhuma vontade – como um eterno bom filho. Só que às vezes ele também faz o papel de mãe esforçada e então adquire sobre os outros os mesmos direitos que a mãe tinha sobre ele. E cobra. E o outro tem que pagar direitinho. Esta, aliás, é a base do relacionamento culpado: tento nunca frustrar quem se sacrifica por mim, e o mesmo exijo dos outros quando faço alguma coisa por eles. É como uma mútua conta corrente que se faz o tempo todo. Parando a sessão na hora combinada, o psicólogo quis cortar este jogo. Quis que ninguém ficasse devendo nada para ninguém. Que as coisas ficassem pagas à vista e na moeda combinada: através do tempo e do dinheiro, e do prazer da liberdade. O psicólogo quis dizer uma coisa mais importante ainda: eu acredito que neste momento da sua vida você pode agüentar não ficar devendo coisas, coisas que, aliás, eu nem sei se você quer ficar devendo. No mínimo, isto que tem que ser combinado. Ou seja, até para se fazer um ato generoso a gente tem que ver para quem, quando e como. É preciso ver o contexto, a situação como um todo, que me dará o significado real de meu gesto. Às vezes,  negar é mais construtivo do que concordar.

 

Por amor de vocês,
já perdi a minha manhã

Aquele paciente estava acostumado a outro esquema: cada um dá o que quer e depois cobra o que quer, numa troca de bondades escravizantes. Um jogo que vem de longe: se ele um dia tivesse recusado a comida da mãe, certamente ela iria culpá-lo. Exatamente como ele culpou o terapeuta por ter passado uma semana péssima, vomitando e tudo. Mas descobriu que é melhor recusar a comida indesejada, ou até vomitá-la, do que ir pela vida afora engolindo coisas para conseguir ser aceito e amado. Na análise da culpa, é muito importante discriminar esta diferença. A diferença entre as contas escusas, aquelas que a gente nunca termina de pagar direito, e as contas quitadas a vista, honestamente. Para aquele paciente, era muito importante perceber que aquilo que a mãe estava propondo não era amor, era um uso. Ela fazia todas aquelas coisa não pelo filho, mas por si mesma. Para manter a sua imagem de mãe boa e esforçada. Fazia tudo por ela e também para ter o filho, para controlá-lo. Gerar culpa e dívida nos outros é uma tremenda forma de controle. É como estipular: eu faço tudo contanto que você seja aquilo que eu quero que você seja: coma a minha comida e viva em função do meu sucesso como mãe. Ora, se ela estivesse mesmo a fim de fazer comidas deliciosas, que fizesse. Isso lhe daria prazer, e pronto, ponto final. O outro é o outro, com seu corpo e seus direitos.

Este sacrificar-se pelos outros é um tema muito delicado. Todo mundo conhece o exemplo da mãe sacrificada, figura muito popular na nossa cultura. Ela faz tudo. É excelente dona-de-casa, se mata pelos outros o dia inteiro, consegue que os filhos a suguem ao máximo. Aos poucos, os outros se tornam dependentes e abusam dela, que vai ficando sem nenhuma vida pessoal. Faz-se vítima. Mas, é engraçado. Quando uma mãe dessas vem me falar no consultório que é uma abnegada, uma injustiçada, noto que ela reclama com uma força, com um poder imenso. A própria voz dela denota o orgulho da vítima, a força da vítima! É um negócio tremendo, são modelos muito antigos, é difícil a pessoa se aperceber deles conscientemente.

Um dia uma mãe dessas me contava suas intermináveis horas de sacrifício. Tinha passado o dia levando e trazendo criança da escola, fazendo compras e comandando a casa. No fim do período estava cheia de tudo e explodiu feio com os filhos. Cobrou deles sua vida desperdiçada. Claro, eles ficaram todos morrendo de culpa. Sentiram-se os destruidores da própria mãe. Só que é muita sacanagem fazer isso com as crianças. Porque no fundo, eis o negócio que esta mãe está fazendo: eu vou te levar à escola, fazer comida, buscar na escola, vou ser uma frustrada na minha vida pessoal, você vai ficar me devendo esta minha vida. Esse é o negócio, só que não está sendo claramente negociado. Se fosse, acho que os filhos prefeririam pegar o ônibus, comer sanduíche, se virar de alguma forma. Que não é mole ficar devendo a vida de alguém. Ainda mais a vida de uma mãe.

Na verdade, esta mulher esconde sob o papel de mãe, sua dificuldade de assumir e cuidar da própria vida pessoal. Não é o caso de ficar jogando isso nos filhos: puxa, já perdi minha manhã! Assim, como um fato consumado. O filho mal toma café e já está devendo uma manhã para a mãe. Não é mais justo que ela negocie com o filho esta manhã? É como se uma pessoa chegasse aqui agora e decorasse toda a minha casa. Eu chego do trabalho e acho tudo muito bonito. Só que depois ela me manda uma tremenda conta de um milhão de reais. Eu não pedi, não combinei! Ela chegou e fez.  E depois cobra o que quer! Me recuso a pagar mas ai o decorador começa: puxa, mas eu trabalhei o dia inteiro, gastei isso, gastei aquilo...    Queixas, chantagem afetiva. Quase uma estorção! E com um decorador a situação seria ainda muito simples. Imagine dever uma vida inteira a  uma figura tão significativa como uma mãe? Por isso certos filhos, já adultos, têm grande dificuldade em rever suas relações familiares: não querem passar pela dor de ver que o grande sacrifício materno nem sempre foi amor mas sim uma relação de uso, um jogo de poder.  E que resta dele uma quase continua sensação de culpa, de estar devendo não sei o que a não sei bem quem, de falta de liberdade, paralisação e impotência.
 
Quando crianças, não tinham condições de perceber o jogo. E nem a própria mãe o percebe de uma forma consciente e clara. Quer ver outra forma sutil de controle culposo do filho? É o caso da mãe muito dedicada que controla o filho através de metas que vai lhe impondo na vida. Faz tudo por ele, mas ele tem que ir assumindo os caminhos, os valores, o jeito dela. Essa mãe como que diz, de muitas formas: você é maravilhoso, é forte, nasceu pra isso e pra aquilo. Quer dizer, são expectativas que ela tem. Ela precisa de um filho assim. Então ela não dá àquela criança a oportunidade de ser normal, de ir naturalmente se descobrindo na vida. Não. A mensagem é: eu te amo muito contanto que você seja como eu quero que você seja.E o filho cresce se sentindo, em algum lugar escondido de seu ser, culpado, inadequado, por ser ele mesmo, do seu próprio jeito.
 
Essas condições do amor não são faladas. Se fossem, o filho até podia se defender. Mas não pode, e vai viver o estigma de ter que ser alguém superior, com uma missão (agradar à mãe e seus futuros substitutos) a cumprir: você é forte, você pode (sempre!?)! E passa a vida inteira tentando ser forte (como a mãe/pai entende o ser forte!). Fica prisioneiro de um ideal.
 
Viverá o papel do herói que sempre tem que proteger os outros, segurar a barra dos outros, ficar frio. Para ser amado, tem que ser sempre uma maravilha de pessoa. Quando as coisas não dão certo, logo se culpa: é que eu não estou sendo bom. Vive nesta ilusão de que só sendo perfeito é que vai ter afeto, significado, reconhecimento. Com o tempo este esquema tende a fracassar. Primeiro, é uma missão impossível. Um humano só pode ser humano, e não um super-homem. Aliás, é bom lembrar que na história do famoso herói, o Super-Homem, ele ficava fraco e impotente quando se aproximava de uma pedra chamada kreptonita, que é de um material que vinha do seu planeta materno! Interessante este fato de que perto da mãe-terra ele enfraquecia! Isto parece indicar que o famoso herói tinha lá suas questões mal resolvidas com a progenitora! O mito do super-homem é mesmo assim. Na melhor das hipóteses uma pessoa prisioneira deste mito receberá aplausos de vez em quando e vaias outras vezes. Mas de qualquer forma, estará nas mãos do ibope, não será livre.
 
E com o tempo, vai-se percebendo que mesmo aplauso não é amor. Não “enche barriga” como o afeto verdadeiro. É só alimento para nosso narcisismo, nossa vaidade. Não preenche a alma. Chega uma hora que a pessoa percebe que há algo errado nesta história. Que ele não está trocando coisas com outros – está sempre dando, segurando, salvando. Ele tem muita facilidade de se relacionar, por exemplo, com quem está precisando de proteção, de colo. Com quem não precisa ser carregado a coisa é mais difícil, que este quer é trocas maduras. Além disso, o super-herói não sabe receber ajuda, muito menos pedi-la. E isto, com certeza, faz muita falta na vida.
 

Quentado, não quero,
Se for coar, não espero.

Como desfazer o jogo das relações culpadas? Este complicado jogo onde um sempre fica devendo não sabe quanto através de negócios sempre mal contados?
Primeiro, é importante perceber este jogo e tentar deixar claro para a gente e para o outro o que está acontecendo. Desmascarar o mecanismo da culpa e não entrar nele.

Eu me lembro de uma pequena história que revela bem como é que este mecanismo funciona. Uma vez, quando era pequena, chegou à casa da minha tia o meu padrinho, que era cantador, repentista, uma
pessoa muito engraçada. Não sei como, minha tia fez café e esqueceu de servir para ele. Meu padrinho não gostou e fez o seguinte versinho:


“Que desaforo que me fizero coaram café e não me déro café quentado eu não quero e, se for coar, não espero.”


Uma musiquinha tão ingênua, mas a gente pode ver nela todo o mecanismo da culpa. Fiquei cismada anos com ela. Porque o verso do meu padrinho deixa o outro sem saída. Sua única finalidade é produzir culpa mesmo. Quer dizer, ele ficou frustrado porque a minha tia errou. Ele vai, e não pode aceitar a realidade da limitação do outro. É bem a reação da criança pequena: não deu, agora não quero mais. (A raiva é tão grande que ela não consegue mais receber). As pessoas grandes sofisticam isso: eu quero ficar com a minha dor, vou tirar a casquinha cada vez que a ferida for sarar para que você veja sempre o mal que me fez. Isto é, não deixo a dor morrer e nem você reparar este mal. Fica uma situação sem saída para o outro: se for coar, não espero.

Assim, na simples história do meu padrinho cantador, estão as várias possibilidades que o jogo da culpa oferece. Vamos refletir um pouco sobre elas. Para começar, minha tia podia ser uma pessoa tão egoísta que nem percebeu o  mal  que  fez.  Aí,  é  diferente. Mas  digamos que  ela  tenha percebido. Neste caso, há dois caminhos. Ou ela fica muito ferida em sua vaidade porque sua imagem de pessoa boa, de dona-de-casa generosa está tão abalada que ela não consegue se desligar disso e tentar uma reparação, ou então ela tenta e o outro é que não aceita a reparação – ele prefere transformar a culpa numa culpa eterna e impotente. É isto que canta o versinho do meu padrinho.

Diante de quem age assim conosco, muitos caminhos se abrem. Você pode ficar eterna e neuroticamente ligado ao outro pelo mal sem perdão que praticou. Afinal, na medida em que não quer reparação, o outro é o testemunho do seu fracasso. Isso é uma grande arma na mão dele. É de novo o poder da vítima. Ou então você não entra nesse jogo. Você se aceita como gente, gente que erra, que erra e fica muito triste, tanto que faz tudo para consertar. Quando este  conserto não  acontece, você  se  sente  chateado, impotente, mas não culpado, e toca a vida. Sabe que não deve nada para ninguém. Não deve porque nunca prometeu mesmo ser perfeito. Se o outro entendeu que você devia ser perfeito, isso é problema dele. Você errou, tentou reparar, não deu – e agora está triste, mas livre. O outro provavelmente vai ficar furioso com esta sua atitude humana e saudável. Mas isso também é problema dele.
 
Este é o melancólico jogo da culpa. Eu não deixo que o outro repare, para que ele, cheio de culpa, me carregue por dentro como um peso. Ele vai fazer isso com muita raiva, mas eu fico com créditos sobre ele. E é claro que ele vai tentar inverter o jogo. Mostrar que eu também sou ruim e, por sua vez, não deixar que eu repare direito. Aí o poder fica com ele. Até que um ou outro consiga parar esta gangorra triste. Senão, a vida vira um campeonato para ver quem é mais vítima. Certos casais passam a vida inteira brincando disso. Ora um está com crédito, ora com débito na bolsa da culpa. Numa semana, o marido se sente forte porque é o ofendido. Aí o ofendido exagera o seu poder de vítima, judia tanto da mulher que ela cobra e o jogo se inverte. E por aí vão. O jogo só acaba quando um decide: errei, já paguei com a tristeza de ter errado, e não aceito nenhuma cobrança além disso. Se houver qualquer possibilidade de reparar o mal que fiz, não pouparei esforços neste sentido. É o máximo que um ser humano pode fazer. Além disto, é loucura. Neste caso, o outro se desespera com o poder perdido, ou desiste também e uma nova relação começa. Mas é difícil adivinhar a reação do outro. Mesmo no consultório, o paciente pode reagir com raiva e ameaças quando o terapeuta se recusa a ser parceiro do seu jogo neurótico.
 
Minha tia é culpada por ter esquecido de oferecer café pro meu padrinho Sebastião das Cobras? Prefiro dizer que ela tem sim responsabilidade, é responsável por isto. Oferecer café para uma visita, naquele lugar do planeta, é um símbolo de amizade. De fato, ela o ofendeu em algum grau. Fez uma “gafe”, uma má educação. Magoou. Bem, o caso exige, de fato uma atitude de reconhecimento e reparação por parte dela. Ofereceu café para os outros visitantes e não o fez ao compadre. Acontece que esta mulher não era o tipo de gente que pisa no pé do outro e ainda reclama e acusa o outro de ter deixado lá o pé debaixo do dela. Pelo contrário. Ela era uma vítima convicta. Talvez por isso mesmo o cantador abusou de sua “boa vontade”. Ela se desmanchou em tentativas de reparação. Mas o homem não aceitou nenhuma. Não  perdoou. Assumir responsabilidade pelo mal que praticamos é bom e necessário para se conviver com um mínimo de harmonia. Reconhecer o erro e reparar é excelente. Mas há um limite sutil e essencial a se respeitar. Reconheço, peço desculpas, reparo. O que mais posso fazer? Oferecer minha veia jugular? Deitar no chão e deixar que o ofendido me pise, me humilhe? Ficar eternamente em dívida pelo mal que fiz ou pelo bem que recebi? Isto é neurose pura. Vício sado-masoquista. Eu quero reparar porque estou de fato ligado ao sofrimento que causei ao outro. Sou responsável mas não culpado pois nunca pretendi ser uma pessoa que não erra. Se o outro não levou isso em conta, o problema é dele. Ele é que me idealizou, ao me colocar como uma pessoa que nunca erra.   Errar não é um crime. É humano. Persistir no erro, não reconhecê-lo, não reparar, é outra coisa...
 
A idealização é um fenômeno é muito comum. As pessoas chegam e dizem: você é maravilhosa, se não fosse você... E com isso, vão dependurando em você as expectativas que bem entendem. E depois ficam frustradas porque você não corresponde. E cobram! É bom aqui também esclarecer as coisas. Eu não tenho culpa de não ser o que ele esperava que eu fosse. Eu posso dar o melhor de mim. Isto eu posso. Mas não posso garantir que o outro fique satisfeito. A capacidade de encontrar satisfação, gratificação, depende da própria pessoa e não necessariamente daquilo que eu dou. Quem entra no jogo da idealização e acha que é vantajoso ser alguém idealizado, não pensou muito sobre o assunto. Agora o outro está te elogiando, te dando nota cem. Mas quem dá nota cem adquire o direito de daqui a pouco te dar zero. E aí, você já está nas mãos dele. Depende do ibope. Corre o risco de ficar se esfolando para agradar. Perdeu a liberdade. O valor da gente, a aprovação ou reprovação de nossos atos, deve vir de dentro, do mais fundo de nós mesmos. E é muito saudável que este algo dentro da gente que nos avalie seja um algo positivo, construtivo. E realista, é claro. Mas não uma vozinha sádica, sempre anotando o que falta e não enxergando o que tem. Você pode dizer que tem meio copo d”água ou que falta meio copo d”água... Depende do seu ponto de vista... E faz diferença.

 

Você só trabalha! Hoje não vou deixar.

Muitas vezes, para evitar o nascimento de uma relação na base da culpa, é preciso renunciar, por exemplo, à imagem de mãe perfeita e agüentar com respeito a frustração dos filhos. Um dia desses, tive uma experiência muito reveladora com o meu filho. Ele estava fazendo um trabalho terapêutico, que começara a surtir efeito e em conseqüência ele estava liberando mais sua raiva. Um dia ele  ficou furioso porque eu estava saindo para o trabalho: “Você só trabalha. Hoje não vou deixar. As outras mães não trabalham, por que só você tem de trabalhar?

Primeiro comecei a defender a minha imagem de boa mãe dizendo que, afinal, trabalhava só meio período e assim por diante. Em bom português, eu fiz chantagem emocional pra cima dele. Ele reagia, tentava ainda sustentar sua raiva, mas aos poucos fui vendo seu olhar abaixar, o queixo que se projetara para frente enquanto ele me enfrentava e expressava sua frustração com o estilo de vida de sua mãe, se encolhia novamente, como de costume. Eu falava queixosa, dizendo que trabalhava para o bem da família, para ter mais dinheiro pra gente comprar as coisas...  E foi aí que percebi o que eu estava fazendo com ele. Eu estava defendendo a minha imagem de boa mãe, de mãe que nunca falhava com o filho. Eu que estou ajudando-o a soltar a sua raiva, na hora em que isso acontece, tiro-lhe o direito de sentir raiva. Então, em vez de ajudá-lo a elaborar uma frustração real, eu estava fazendo com que ele se sentisse culpado por estar se queixando de uma mãe tão boa, que só trabalhava meio período, e assim mesmo só para poder sustentá-lo. Só lhe restava engolir a raiva e ainda ficar com culpa. De certa forma, eu anulava a raiva dele através da culpa. E ainda por cima o confundia: de um lado, eu o estimulava a expressar sua raiva, e de outro o punia com a culpa quando ele o fazia.... Deixava-o sem saída.
 
Foi um momento importante. Percebi que eu não podia tirar dele o direito de sentir e expressar raiva, e percebi também que eu gostava do meu trabalho e não tinha generosidade suficiente para deixar de trabalhar numa boa. Se o fizesse, sem convicção, de algum jeito ia cobrar dele. Disse-lhe então a verdade verdadeira: eu ia trabalhar sim porque isto era importante para mim porque eu gostava muito e precisava. Seu rosto se iluminou de novo. De raiva saudável que uma boa disputa, honesta e sem chantagens, pode dar. O fato é que brigamos violentamente, ele pegou a minha bolsa, eu arranquei a bolsa dele e fui trabalhar. Cheguei ao consultório com uma enorme culpa, louca para telefonar de volta. Aí percebi que telefonar era uma sedução, e estimularia a culpa dele: vê que boa mãe que eu sou... Seria um “cala a boca”.
 
Trabalhei até a hora em que tinha de trabalhar. Ele ficou dois dias sem falar comigo. Encontrou sua força, sentiu-se no direito. No fim, os dois saímos ganhando. Nossa relação ficou mais real, menos mistificada. Ele agora podia sentir raiva sem culpa, mesmo porque eu não era uma mãe maravilhosa, perfeita, sacrificada o tempo inteiro.  É preciso muita força interior para brigar com uma mãe perfeita. A partir daí a gente passou a elaborar melhor estas situações. Foi bom para os dois. Eu não precisava me sentir inteiramente má porque não era generosa o suficiente para deixar de trabalhar. E ele podia livremente sentir raiva e frustração por causa disso. Os dois podíamos manter, sem mistificações nem falsas renúncias, nossas próprias realidades. Num processo assim, sofre-se um pouco, mas não ficar devendo é sempre muito bom.

 

Amor que dá raiva? Também faz parte da vida!

À primeira vista, pode parecer que eu não acredito muito na generosidade e no amor.

O problema é que há muito negócio fantasiado de generosidade. Se eu dou um milhão de reais, não pelo bem do outro, mas para receber cinco, isso é um negócio. Entre as pessoas isso também pode acontecer. A hora de dar é muito bonita, mas depois vem uma cobrança sem fim e em moedas que nem foram as combinadas. Mas nem por isso eu acho que seja necessário defender-se da generosidade. Mesmo porque, quando é pra valer, a generosidade pode fazer nascer o sentimento bendito, saboroso, da gratidão, muito distinto do sentimento de culpa. Gratidão é uma coisa que lava a alma e enche o corpo de alegria. Bem diferente daquela gratidão que leva à submissão e à dívida. Essa, produz mal-estar. No ato generoso, há como que um transbordar de si que por si mesmo se paga. A pessoa generosa está ligada à necessidade do outro, e a alegria do outro é o seu prazer. Essa alegria e o prazer do próprio gesto, é a sua recompensa, um pagamento à vista: fica por aí. A generosidade que prevê a dívida não é amor, é uso. É claro que a pessoa generosa fica muito contente quando o outro sabe receber o gesto. Sem submissão, porque a submissão tira o bem-estar.
 
A mãe que sabe cuidar de si e cresce como pessoa, vai-se sentir melhor e ser naturalmente mais generosa. Vai ter mais para dar e fará isso numa boa. Se assim despertar nos filhos sentimentos negativos, de raiva, é importante lidar com eles na hora em que surgem. A raiva, como todos os demais sentimentos, tem a sua função. É uma tremenda energia a ser usada para lidar com a vida. Agora, raiva negada, represada, vira violência. Se você não for uma pessoa muito viciada em culpa, poderá se permitir acolher sua raiva, e portanto, a alheia. Aceitá-la. Compreendê-la. Não “coma barriga”, não compre gato por lembre. Perceba quando alguém, mesmo o ente mais querido da vida, está te passando para tráz. Consciência é essencial. E aí será capaz de começar a lidar com sua raiva, transformá-la. Seja expressando-a honestamente se for o caso, ou aguardando a ocasião propícia. Mas não a engula a seco. Não finja que é mel. Faz mal. Isto é esconder o sol com a peneira. Não funciona. Raiva acumulada vira panela de pressão, e quando menos espera, o tal sujeito bonzinho e perfeito explode por uma coisinha de nada. Perde o controle da raiva. E ninguém se lembrará que ele já engoliu um quilo de sapo só na última semana. Explodindo assim, fora de hora, sem controle, além da medida, será logo acusado de impulsivo, estúpido, exagerado... E pronto! Lá está você, de novo, pedindo desculpa e perdão. Justamente ao sujeito que vive te enfiando sapos goela a dentro!  Mas, de fato, naquele dia ele só tinha te empurrado de leve, distraidamente. E você explodiu só por aquilo? Isto é masoquismo. Você perde a razão que tinha por ter sido inadequado. Tudo isto porque tentou ser perfeito e agüentar, agüentar... O que é? Campeonato do maior agüentador do mundo? Procure não deixar acumular sua raiva. Isso é acumular bombas dentro de si. E elas costumam explodir quando a gente não está preparada. Cuide de você. Só assim cuidará dos outros. Se percebe sua raiva e se dá conta das suas razões e fecha consigo mesmo, estará já trabalhando sua raiva e transformando-a em outras coisas: consciência de quem você de fato é, de quem é o outro, o mundo, a vida. Coragem de defender-se e colocar-se, de se posicionar na vida, proteger seu terrítório, seu espaço pessoal. E nestas condições, enxergará também melhor o outro, aquele que te feriu, e poderá começar a sentir compaixão, e a perdoar. Perdão vem da força e da coragem. Não do medo.
 
A idéia de que a pessoa que ama – seja mãe ou filho – só sente amor, é papo-furado. Ela sente amor e sente raiva. Os sentimentos existem. Todos. E ainda bem. Precisamos deles. E sua única ética é poder ser manifestados. O abraço amoroso só é profundo se os braços não estão segurando socos enrustidos, negados. O braço ocupado em segurar o soco não pode abraçar direito. Ele fica duro e é símbolo de um coração pesado. Se os filhos podem manifestar apenas sentimentos bonzinhos, os outros sentimentos vão virar culpa inconsciente, e complicar mais tarde.
A culpa é um atraso de vida. Não ajuda nada. E complica. Responsabilidade é outra coisa. Ter consciência do mal que fiz é essencial. Ferir alguém e não o perceber é negar duplamente a pessoa. É ignorá-la, agir como se ela nem sequer existisse. Perceber, reparar. Cuidar. Isto é a essência do ser humano, homem e mulher. É bom que a gente cuide. De si mesmo e do outro. Acho que nada é tão humano como o cuidado, o se ocupar com carinho do outro, das coisas, de tudo. Mas com respeito por nós mesmos, nos aceitando como seres sujeitos a errar, até mesmo quando estamos tentando acertar. No fundo, a culpa esconde uma profunda vaidade, um desejo de ser perfeito. Mas embaixo disto, no mais fundo ainda, esconde um medo. De ser criticado, castigado, abandonado. De não ser aceito, amado. A saída é você mesmo se bancar daqui por diante. Seja sua própria mãe amorosa, seu próprio pai compreensivo e amigo fiel. Uma pessoa adulta só está  realmente sozinha e desamparada, se estiver abandonada por si mesma. Se não souber se fazer boa companhia, e se apoiar sempre, em qualquer circunstância. Mesmo quando fizer um ato ruim. Paciência. Posso reparar. Mas me culpar, de jeito nenhum. Corta essa!


Texto publicado na revista Psicologia e Comportamento, em MCMLXXXIV, e revisto pela autora para o site Caderno On-Line, MM.



"Maria de Melo Azevedo é psicóloga (CRP 06/1114) formada pela USP e psicoterapeuta reichiana, com mais de trinta anos de experiência em clínica individual e grupo."

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